Onde o "Green Card" encontra o Greenwashing
- YCL info
- 9 de jul.
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A Copa do Mundo tem dado mais bolas fora do que dentro quando o assunto é emergência climática. Cartão verde – ou green card, como dizem nossos colegas estadunidenses – para o planeta está bem longe de acontecer no grande encontro das nações que amam o futebol
Por Leslie Beatrice Diorio
Se você leu minha última coluna, sabe que confiar desconfiando é o conselho que eu mais repito quando analisamos narrativas corporativas sobre sustentabilidade. Desta vez, o campo de jogo da minha provocação não é uma mineradora no Pará, mas sim os gramados da Copa do Mundo FIFA 2026. Sim, o Brasil pode até não ter ido longe na competição, mas isso não significa que a gente tenha que deixar de olhar para a "fotografia real" por trás do evento mais assistido do planeta.
Em 2022, durante a realização da Copa do Mundo do Catar, a FIFA – representada pelo seu presidente Gianni Infantino - chegou a pedir que os torcedores levantassem um “cartão verde para o planeta”. Já naquela época, a entidade foi acusada de greenwashing por incentivar algo que ela mesma não estava fazendo. Quatro anos se passaram e o discurso continua o mesmo, assim como as atitudes.
Apesar de dizer incentivar o uso prioritário de estádios já existentes, hospedagens com práticas sustentáveis, promoção de transporte público nas cidades-sede, alguém já parou para pensar a quantidade de emissão de GEE provocada pelos inúmeros deslocamentos das 48 seleções participantes? E o que falar do deslocamento do próprio presidente da FIFA que, de acordo com levantamento do UOL, deu quase duas voltas ao mundo para assistir 36 jogos da Copa até agora?
A edição de 2026 está a caminho de ser a mais poluente da história, com uma projeção de emissão de 9 milhões de toneladas de CO2 — quase o dobro da média das últimas quatro edições. Onde está o erro de cálculo? Assim como no caso da Alcoa – exemplo dado na coluna da semana passada, no qual o relatório omitia o deslizamento de uma barragem no Pará - aqui a comunicação oficial muitas vezes foca no "gol ambiental" e ignora o elefante na sala: o modelo de expansão do torneio.
Ao aumentar a participação no evento para 48 seleções e espalhar os jogos por três países continentais (EUA, México e Canadá), a FIFA criou um pesadelo logístico. O transporte aéreo será responsável por cerca de 87% das emissões. Estamos falando de seleções e torcedores cruzando milhares de quilômetros entre Toronto e Seattle, por exemplo, o que torna qualquer discurso de neutralidade uma peça de marketing difícil de engolir.
Além disso, a escolha dos parceiros revela muito sobre a transparência — ou a falta dela. Em 2024, a FIFA assinou com a Aramco, a gigante estatal de energia saudita que é, sozinha, a maior emissora corporativa de gases de efeito estufa do mundo. É o que especialistas chamam de "laboratório de greenwashing": usar o brilho do esporte para limpar a imagem de indústrias altamente impactantes.
Até a segurança dos atletas está em jogo. O calor extremo, intensificado pela crise climática, já obriga pausas para hidratação que, ironicamente, foram transformadas em oportunidades comerciais para emissoras que transmitem o evento ao redor do mundo. A crise climática não é mais uma ameaça distante. Ela está ditando o ritmo da partida e a saúde de quem está em campo.
Como jovens lideranças climáticas, nosso papel é oferecer essa contranarrativa. Precisamos questionar: o que restará para o planeta quando o último jogo terminar? Se a comunicação não servir como ferramenta pedagógica para o letramento climático, continuaremos assistindo a um espetáculo onde o greenwashing é quem levanta a taça.
E você? Vai levantar o cartão verde ou vai começar a olhar as entrelinhas desse placar ambiental?
Sobre a autora
Mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP com a dissertação "O profissional de comunicação como educador: o diálogo entre os coletivos de emergência climática e a sociedade brasileira". Este é meu título mais atual, conquistado em dezembro de 2025, resultado de um trabalho de pesquisa com comunicadores de coletivos de emergência climática do Brasil. Tenho defendido há um tempo - desde quando trabalhava em grandes organizações - o papel educativo da comunicação. Encontrei no tema emergência climática uma janela de oportunidade para aprofundar esta percepção. Também sou pós-graduada em Gestão da Comunicação Empresarial pela Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE), em Administração de Marketing pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e graduada em Comunicação Social com ênfase em Jornalismo pelo Instituto Metodista de Ensino Superior, atual Universidade Metodista de São Paulo. Entre 2002 e 2016 fui coordenadora de comunicação nas multinacionais Johnson & Johnson e Avon. Atualmente trabalho unindo as vertentes comunicação e educação na frente de educação do Grupo Report, como facilitadora e instrutora de cursos relacionados a sustentabilidade.

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