top of page

Quando o território assume a narrativa sobre o clima



Em nossas últimas conversas, explorei como as narrativas muitas vezes omitem a responsabilidade humana ou criam distâncias entre o discurso corporativo e a realidade local. Mas como romper essa barreira? A resposta está na comunicação dialógica e horizontal - aquela que não apenas informa, mas que escuta, traduz e compartilha o microfone com quem está na ponta


Por Leslie Beatrice Diorio


Há cerca de 1 mês comecei um trabalho voluntário no Greenpeace depois de conhecer, junto com uma turma de alunos da YCL um projeto bem interessante que eles desenvolvem nas escolas de São Paulo. A ideia é levar educação ambiental por meio de palestras e ativações especiais para alunos da educação infantil, ensino fundamental e ensino médio. Pensei: “essa é a minha chance de me aproximar de um público que não está no dia-a-dia do meu trabalho, mas que é fundamental ser impactado com conteúdo educativo”. E lá fui eu. Já participei de duas visitas e, simplesmente, fiquei encantada.

Comecei a coluna desta semana contando esta nova experiência em minha vida porque ela me inspirou a escrever mais sobre como é importante saber usar uma linguagem acessível para determinados públicos quando queremos que eles entendam algo tão complexo, como é o caso da emergência climática. Lembrei de dois exemplos que ilustram melhor o que estou querendo dizer: o projeto Corre de Quebrada, também do Greenpeace, e o programa Imprensa Jovem, que nasceu de um projeto desenvolvido por mais de 400 escolas e virou política pública no município de São Paulo.

O Corre de Quebrada é uma aula de como conectar a justiça climática ao território. Ele utiliza a cultura periférica — como o rap e as batalhas de rima — para denunciar que a crise climática não é um conceito abstrato, mas algo que se manifesta nas enchentes que invadem casas, no calor extremo e na falta de água. Ao usar termos como "corre" e valorizar a sabedoria de quem "vive na pele", o projeto deixa de ser uma comunicação "sobre" a periferia para ser uma construção "com" a periferia, transformando a resistência cultural em política viva.

Já o Imprensa Jovem atua na base da formação cidadã através da educomunicação (já falamos sobre essa área aqui). Nele, os estudantes deixam de ser apenas consumidores de mídia para se tornarem produtores ativos de notícias. Por meio de podcasts, rádios escolares e blogs, esses jovens traduzem os desafios de suas comunidades e escolas, desenvolvendo autonomia e uma leitura crítica da mídia. É uma política pública que prova que, ao dar as ferramentas (como kits multimídia e formação), a juventude é capaz de ampliar os canais de diálogo de forma democrática e colaborativa.



Essas iniciativas promovem uma cultura de escuta e participação. Elas combatem o "negacionismo por omissão" que discutimos anteriormente, pois trazem a realidade dos territórios por meio de vozes que a mídia tradicional muitas vezes ignora. Enquanto o Corre de Quebrada usa a rima para pautar o racismo ambiental, o Imprensa Jovem transforma a escola em uma agência de notícias que conecta a educação aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Se queremos mudança, a comunicação não pode ser um monólogo de especialistas. Ela precisa ser uma ponte. Quando a linguagem é de fácil entendimento e o processo é horizontal, a informação deixa de ser um dado técnico e passa a ser uma ferramenta de conquista de direitos.

Semana que vem será nossa última coluna. Foi tão incrível escrever durante estes dois meses para vocês sobre assuntos que ainda não são tão explorados pela mídia tradicional – pelo menos não de uma forma intensa e democrática! Já com saudades, te pergunto: você gostaria que eu falasse sobre algum assunto que não abordamos? Deixe sua sugestão de tema nos comentários!


Sobre a autora

Mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP com a dissertação "O profissional de comunicação como educador: o diálogo entre os coletivos de emergência climática e a sociedade brasileira". Este é meu título mais atual, conquistado em dezembro de 2025, resultado de um trabalho de pesquisa com comunicadores de coletivos de emergência climática do Brasil. Tenho defendido há um tempo - desde quando trabalhava em grandes organizações - o papel educativo da comunicação. Encontrei no tema emergência climática uma janela de oportunidade para aprofundar esta percepção. Também sou pós-graduada em Gestão da Comunicação Empresarial pela Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE), em Administração de Marketing pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e graduada em Comunicação Social com ênfase em Jornalismo pelo Instituto Metodista de Ensino Superior, atual Universidade Metodista de São Paulo. Entre 2002 e 2016 fui coordenadora de comunicação nas multinacionais Johnson & Johnson e Avon. Atualmente trabalho unindo as vertentes comunicação e educação na frente de educação do Grupo Report, como facilitadora e instrutora de cursos relacionados a sustentabilidade.

Comentários


YCL_SIGLA_P.png

R. Paulistana, 595 - Sumarezinho, São Paulo - SP, 05.440-001

CNPJ 04.845.365/0001-78

info@youthclimateleaders.org

+55 21 97457-3741

FALE COM A YOUTH CLIMATE LEADERS (YCL) pelas redes sociais!

© 2024 by Youth Climate Leaders.

  • Instagram
  • LinkedIn
  • Youtube
bottom of page