Confie desconfiando
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- há 7 dias
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É este o conselho que eu dou quando você se depara com narrativas vindas de empresas com histórico de grandes impactos ambientais
Por Leslie Beatrice Diorio
Um dos grandes aprendizados que conquistei durante meu mestrado e durante minha carreira no mundo corporativo foi a importância de olharmos o todo e não apenas um pedaço da história.
Quando uma empresa quer prestar contas à sociedade, aos seus públicos de interesse, é sempre muito difícil encontrar o equilíbrio de informações necessário para que as pessoas impactadas por esta comunicação consigam enxergar a fotografia real. Ser transparente é uma virtude propagada nos discursos, mas dificilmente identificada na prática. Vou usar um caso bem emblemático que foi citado por um dos coletivos que entrevistei para minha dissertação.
O Tapajós de Fato é um coletivo que atua como um veículo de comunicação popular, alternativo e independente, sediado em Santarém, na região Oeste do Pará. Fundado em agosto de 2020, o grupo surgiu do descontentamento de estudantes de comunicação com o mercado de trabalho local — muito voltado ao setor empresarial — e com o controle da mídia de massa por grupos políticos da região.
Em 2022, eles produziram - em parceria com o MAM (Movimento pela Soberania Popular na Mineração) e a Escola de Ativismo – o documentário O Preço da Bauxita, que aborda os impactos socioambientais da mineração de bauxita na região de Juruti, no Pará, especificamente sobre um deslizamento de uma barragem de rejeitos da mineradora Alcoa. O filme traz a visão dos povos da região e registra as graves consequências deste acidente para as comunidades locais, como a contaminação hídrica, a dependência externa de água e cestas básicas enviados pela própria Alcoa e violação de direitos, já que o material denuncia como a empresa explora o território sem dar o retorno prometido.
Eu não sabia deste filme e é claro que fui assistir. Quando terminei, decidi procurar como a empresa tratou desse assunto no seu relatório de sustentabilidade 2023, principal documento que divulga dados ambientais, sociais e de governança. E é claro que as informações não batiam. Pelo contrário, no material oficial da Alcoa o deslizamento mostrado no documentário nem aparecia. Para ser exata, o documento cita que, em 2023, houve um “acidente” que gerou afastamento em Juruti, além de reclamações. Nenhuma palavra sobre deslizamento.
O que o Relatório de Sustentabilidade da Alcoa e o documentário O Preço da Bauxita feito pelo coletivo Tapajós de Fatos têm em comum? Ambos são peças de comunicação que retratam a atuação da empresa. Um deles, sob a ótica corporativa e o outro como uma contranarrativa popular.
A bauxita, por exemplo, é tratada no documentário como um minério cuja extração foca nos custos humanos e ambientais. Já no relatório ela é base fundamental da cadeia de produção de alumínio. O documentário apresenta o depoimento de moradores que afirmam que o desmatamento e o desastre da barragem acabaram com a convivência da população com a floresta. Já o relatório celebra a reabilitação de 456 hectares em 2023 e o plantio de mais de 64 mil mudas em Juruti.
Em qual das duas peças você acreditaria? Será que se a Alcoa admitisse seus impactos negativos e fosse mais transparente na divulgação de suas informações o documentário teria tido a repercussão que teve? A comunicação feita pelo coletivo Tapajós de Fato* é de resistência, de denúncia, de mobilização comunitária no chão do território que serve como ferramenta pedagógica de letramento.
*Em tempo: há exatamente um mês o perfil do coletivo Tapajós de Fato no Instagram foi bloqueado, sem aviso prévio ou justificativa. A organização alega censura e a Meta até agora não se manifestou.
Sobre a autora
Mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP com a dissertação "O profissional de comunicação como educador: o diálogo entre os coletivos de emergência climática e a sociedade brasileira". Este é meu título mais atual, conquistado em dezembro de 2025, resultado de um trabalho de pesquisa com comunicadores de coletivos de emergência climática do Brasil. Tenho defendido há um tempo - desde quando trabalhava em grandes organizações - o papel educativo da comunicação. Encontrei no tema emergência climática uma janela de oportunidade para aprofundar esta percepção. Também sou pós-graduada em Gestão da Comunicação Empresarial pela Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE), em Administração de Marketing pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e graduada em Comunicação Social com ênfase em Jornalismo pelo Instituto Metodista de Ensino Superior, atual Universidade Metodista de São Paulo. Entre 2002 e 2016 fui coordenadora de comunicação nas multinacionais Johnson & Johnson e Avon. Atualmente trabalho unindo as vertentes comunicação e educação na frente de educação do Grupo Report, como facilitadora e instrutora de cursos relacionados a sustentabilidade.



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