Série El Niño 2026 - Quais são os principais impactos conhecidos em ciclos de El Niño?
Este é o terceiro post de uma série sobre o El Niño 2026. Acompanhe nas próximas semanas outros textos aqui no blog e vídeos nas redes sociais para conhecer melhor o fenômeno que tem movimentado a mídia e já mostra consequências.

Texto escrito por Camila Billerbeck*
Na última coluna, explicamos que em junho de 2026 a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) confirmou o estabelecimento do fenômeno El Niño, e indicou que o evento tem alta probabilidade de ter categoria ‘muito forte’ ou seja, com um aquecimento das temperaturas da superfície do Pacífico superiores a 2,0 °C, com o pico de intensidade entre os meses de outubro, novembro e dezembro de 2026.
E quais as consequências disso?
Apesar de se originar na região do oceano Pacífico Tropical, o fenômeno El Niño tem capacidade de causar impactos em diversas regiões do mundo. Isso acontece porque é como se a região oceano-atmosfera aquecida fosse uma espécie de “bateria” fornecendo energia para alimentar e até mesmo alterar as condições normais de circulação atmosférica. Isso significa que ondas de calor, regimes de precipitação, condições de seca, enchentes e outros eventos podem ser intensificados ou alterados em várias partes do mundo, inclusive na América do Sul e no Brasil.

A Figura 2 sintetiza de maneira geral o padrão mapeado de impactos conhecidos associados à períodos com ocorrência de El Niño, com anomalias esperadas de temperatura e precipitação em dois períodos sazonais (dezembro a fevereiro e junho a agosto).
No período de dezembro a fevereiro, que corresponde ao inverno no hemisfério norte e ao verão no hemisfério sul, o padrão típico do El Niño mostra de maneira geral, aquecimento no sul dos Estados Unidos e norte do México, condições úmidas no nordeste da América do Norte, seca no sul da Ásia e Oriente Médio, calor no Chifre da África e sudeste asiático, e um padrão notável de calor e umidade pelo Pacífico equatorial, refletindo o deslocamento da convecção para o Pacífico central e leste.
Nesse período, no hemisfério sul, o sul do continente (incluindo parte do Brasil) tende a apresentar condições quentes e úmidas, enquanto o norte do hemisfério sul tende a ficar mais seco que o normal.
No período de junho a agosto, correspondente ao verão no hemisfério norte e ao inverno no hemisfério sul, o padrão se inverte parcialmente: o sudeste asiático e a Austrália, no seu inverno austral, ficam secos, a Índia mostra seca durante o que deveria ser a estação chuvosa da monção de verão, e a América do Sul, já em inverno austral, mostra um padrão misto, com quente e seco ao norte e quente e úmido mais ao sul.

Além desses impactos que são normalmente associados a ocorrências de El Niño em geral, um ponto que chama atenção nesse ano, é que devido à magnitude do aquecimento oceânico observado no Pacífico tropical, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) alerta para a possibilidade de os efeitos do fenômeno se estenderem para além do período usual de pico, ou seja, os impactos climáticos podem persistir até o início de 2027.
Embora o El Niño não seja causado pelas mudanças climáticas, ele tende influenciar as temperaturas médias globais e, historicamente, coincidiu com alguns dos anos mais quentes já registrados.

Segundo a OMM, o El Niño de 2026 e 2027 ocorre sobre uma base de aquecimento global já elevada, o que tende a intensificar seus efeitos sobre extremos de temperatura e precipitação. Segundo a secretária geral da OMM, Celeste Saulo, "o El Niño mais recente, em 2023 e 2024, foi um dos cinco mais fortes já registrados e teve papel nas temperaturas globais recordes observadas em 2024". Portanto, é algo para se observar no próximo ano, com o evento atual.
Daí a importância de compreender e monitorar antecipadamente as variáveis climáticas, de modo a se preparar para esses impactos. Na próxima coluna vamos entender um pouco melhor alguns dos impactos esperados para o Brasil em épocas de El Niño.
Referências
WORLD METEOROLOGICAL ORGANIZATION (WMO). Prepare for El Niño. Genebra: WMO, 2026. Disponível em: https://wmo.int/news/media-centre/wmo-prepare-el-nino. Acesso em: 24 jul. 2026.
WMO. Launch of the WMO El Niño/La Niña Bulletin (June-August 2026). Disponível em: https://wmo.int/content/launch-of-wmo-el-ninola-nina-bulletin-june-august-2026. Acesso em: 24 jul. 2026.
UN NEWS. El Niño confirmed, set to fuel more extreme weather, says WMO. Disponível em: https://news.un.org/en/story/2026/06/1167620. Acesso em: 03 jul. 2026.
CARLOWICZ, Michael; SCHOLLAERT UZ, Stephanie. El Niño. NASA Science, Washington, D.C., publicado em 14 fev. 2017, atualizado em 2 out. 2024, revisado em 16 jul. 2026. Disponível em: https://science.nasa.gov/earth/explore/el-nino/. Acesso em: 30 ago. 2026.
*Camila Billerbeck é Engenheira Civil pela Escola de Engenharia de São Carlos, USP (2014). Mestre em Engenharia de recursos hídricos pelo departamento de Engenharia Hidráulica e Saneamento da Escola Politécnica (USP). Engenheira hidróloga,com experiência em projetos técnicos e consultoria em engenharia hidráulica e hidrologia para setores como infraestrutura rodoviária e mineração, e fellow da YCL. Para se conectar com a autora, acesse: https://www.linkedin.com/in/camilabillerbeck/
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