Série El Niño 2026 - O que esperar dos impactos do El Niño no Brasil?
Este é o quarto post da série sobre o El Niño 2026. Acompanhe outros textos aqui no blog e vídeos nas redes sociais para conhecer melhor o fenômeno que tem movimentado a mídia e já mostra consequências.

Texto escrito por Camila Billerbeck*
Conforme vimos nas últimas colunas, o El Niño foi confirmado em junho de 2026 pela NOAA. E os modelos indicam que esse fenômeno de 2026 tem alta probabilidade de atingir a categoria muito forte, e de permanecer até pelo menos o início de 2027. E quais as consequências disso para o Brasil?
Para acompanhar a evolução do El Niño e seus impactos no Brasil, o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) em parceria com instituições como INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico), CEMADEN (Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais), SGB (Serviço Geológico do Brasil), SEDEC (Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil) e CENSIPAM (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia) montaram o Painel El Niño 2026-2027, para divulgar informações sobre o monitoramento das condições associadas ao fenômeno e subsidiar ações de prevenção, preparação e gestão de riscos.
Previsões climáticas sazonais para o Brasil (SON 2026)
O último boletim do Painel El Niño 2026-2027, publicado no início de setembro, apresenta um panorama das consequências mais prováveis para o Brasil no trimestre setembro-outubro-novembro (SON). O boletim mapeia possíveis impactos em temperaturas, chuvas, secas, risco de incêndio, ondas de calor, entre outros, para o Brasil.
É importante destacar que essas previsões de impacto se originam de modelos climáticos construídos a partir de observações de eventos passados e de anos análogos de El Niño, ou seja, não representam uma certeza sobre o que de fato irá ocorrer. Ainda assim, esses modelos são fundamentais para estimar tendências e orientar ações de prevenção e planejamento.
De maneira geral quanto às condições de temperatura, os modelos para o Brasil no trimestre setembro-outubro-novembro (SON) de 2026 indicam maior probabilidade de temperaturas acima da faixa normal em grande parte do Brasil. Ainda assim, não se descartam eventos de queda acentuada das temperaturas em setembro, associados à incursão de massas de ar frio.
Já quanto ao regime de chuvas, o boletim indica que há uma maior probabilidade de chuvas acima da faixa normal na Região Sul e em parte de São Paulo (SP) e Mato Grosso do Sul (MS), e de chuvas abaixo da faixa normal nas Regiões Norte e Nordeste do país. A previsão também indica maior probabilidade de chuvas abaixo da faixa normal em parte do Brasil Central e da Região Sudeste, principalmente em Mato Grosso (MT), Tocantins (TO), norte de Goiás (GO), Minas Gerais (MG) e Espírito Santo (ES).
A Figura 1 resume as condições gerais previstas pelos modelos climáticos para o próximo trimestre.


A combinação de precipitações abaixo da faixa normal com um possível atraso no início da estação chuvosa, especialmente no centro e sul da Amazônia Legal, e a persistência de condições mais secas no norte e nordeste do Pará, deve manter temperaturas acima da média e prolongar as características da estação seca durante parte da primavera no Brasil Central, aumentando o potencial de propagação de queimadas e o risco de incêndios florestais, além de limitar a recuperação dos níveis dos rios e da umidade do solo, o que exige atenção especial aos possíveis impactos na agricultura, por exemplo.
O Boletim ainda traz uma comparação entre as condições de seca observadas em julho de 2026 e aquela registrada em julho de 2023, mês em que se iniciava a configuração do último episódio de El Niño (2023/2024). Essa comparação permite avaliar e antecipar possíveis condições para o restante de 2026, ainda que a NOAA ressalte que eventos de maior intensidade nem sempre resultem em impactos mais severos sobre o tempo e o clima.
Ondas de calor
O boletim aponta que o número de ondas de calor no trimestre setembro-novembro vem aumentando gradativamente desde o início da série histórica (1979), independentemente da ocorrência do El Niño, possivelmente relacionado ao aquecimento global. Para o trimestre de setembro-novembro são esperadas de 2 a 3 ondas de calor em média, já em anos com episódios de El Niño essa estimativa pode ficar em torno de 3 a 5 ondas de calor. Em particular, estatisticamente, anos com ocorrência de El Niño apresentam em média, uma onda de calor a mais no mesmo período em relação aos anos normais.
O diagrama na Figura 2 resume o número de ondas de calor (OCs) registradas no trimestre setembro-novembro, de 1979 a 2025, para cada estado brasileiro. As setas no topo do gráfico indicam os anos em que houve ocorrência de El Niño. Da esquerda para a direita, nota-se uma tendência de intensificação das cores, a partir dos anos 2010, especialmente entre 2020 e 2025, coincidindo com os anos nos quais ocorreram El Niño.

A Nota Técnica reforça que nenhum El Niño se repete exatamente igual ao anterior, e que os impactos regionais dependem também de outros fatores climáticos que interagem com o fenômeno.
Diante disso, uma das principais recomendações à população é permanecer atenta às previsões, avisos e alertas oficiais dos órgãos competentes, e realizar a atualização/cadastro para recebimento de alertas das defesas civis locais. Para receber alertas da Defesa Civil, envie uma mensagem de texto com o seu CEP (sem espaços ou traços), para o número 40199. O serviço é gratuito.
Na próxima (e última!) coluna da série, vamos falar um pouco sobre se existe uma relação do El Niño com as mudanças climáticas, e sobre mitigação de impactos e resiliência.
Referências
INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE); INSTITUTO NACIONAL DE METEOROLOGIA (INMET); FUNDAÇÃO CEARENSE DE METEOROLOGIA E RECURSOS HÍDRICOS (FUNCEME); CENTRO GESTOR E OPERACIONAL DO SISTEMA DE PROTEÇÃO DA AMAZÔNIA (CENSIPAM). Nota Técnica El Niño 2026. Agosto de 2026. Disponível em: https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/painel-el-nino-2026-2027-terceiro-boletim-sobre-o-monitoramento-do-fenomeno-no-brasil-e-publicado. Acesso em: 12 set. 2026.
*Camila Billerbeck é Engenheira Civil pela Escola de Engenharia de São Carlos, USP (2014). Mestre em Engenharia de recursos hídricos pelo departamento de Engenharia Hidráulica e Saneamento da Escola Politécnica (USP). Engenheira hidróloga,com experiência em projetos técnicos e consultoria em engenharia hidráulica e hidrologia para setores como infraestrutura rodoviária e mineração, e fellow da YCL. Para se conectar com a autora, acesse: https://www.linkedin.com/in/camilabillerbeck/
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