Série El Niño 2026 - O que é o El Niño?
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- há 3 dias
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Este é o primeiro post de uma série sobre o El Niño 2026. Acompanhe nas próximas semanas outros textos aqui no blog e vídeos nas redes sociais para conhecer melhor o fenômeno que tem movimentado a mídia e já mostra consequências
Texto escrito por Camila Billerbeck*
“El Niño” e “La Niña” são as duas fases de um mesmo fenômeno climático natural chamado ENOS, ou El Niño Oscilação Sul. Esse fenômeno acontece no Oceano Pacífico equatorial e envolve a interação entre o oceano e a atmosfera.
Em condições normais ou neutras, os ventos alísios (que são fluxos de ar constantes e úmidos) sopram de leste para oeste ao longo do equador, empurrando as águas superficiais mais quentes em direção à Indonésia e permitindo que águas frias e ricas em nutrientes subam à superfície na costa da América do Sul, processo chamado de ressurgência.
No El Niño, esses ventos enfraquecem ou até se invertem, o que permite que uma língua de água mais quente se espalhe pelo Pacífico central e leste, reduzindo a ressurgência costeira. Na La Niña, o processo se intensifica no sentido oposto, com ventos alísios mais fortes que o normal e águas ainda mais frias na mesma região.

Na fase El Niño, as águas superficiais do Pacífico central e leste ficam mais quentes do que a média. Na fase La Niña, ocorre o oposto, com águas mais frias do que o normal na mesma região. Existe ainda uma terceira condição, chamada neutra, quando as temperaturas do oceano estão próximas da média histórica.
Esse aquecimento ou resfriamento pode parecer pequeno em graus, mas é suficiente para alterar padrões de vento, chuva e temperatura em diversas regiões do planeta. Esses impactos ocorrem porque a porção tropical do oceano pacífico atua como um dos motores de transferência de calor para a atmosfera global.

Esse fenômeno é monitorado por cientistas por meio de índices que acompanham as anomalias de temperatura da superfície do mar em regiões específicas do Pacífico equatorial. Para isso, o Pacífico é dividido em quatro áreas de referência, chamadas Niño 1+2, Niño 3, Niño 3.4 e Niño 4 (Figura 3), cada área tem um papel diferente no diagnóstico do fenômeno.
A região Niño 1+2, que é mais próxima da costa da América do Sul, costuma ser a primeira a esquentar no início de um El Niño. A região Niño 3 é a que apresenta maior variabilidade de temperatura. Já a região Niño 4, mais a oeste, funciona como um bom indicador para as chuvas na Indonésia.

A região Niño 3.4 é a principal referência usada por centros como a NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, do inglês National Oceanic and Atmospheric Administration) para acompanhar o fenômeno semana a semana.
Como a NOAA declara El Niño?
Para classificar oficialmente um evento, a NOAA utiliza o índice chamado ONI (Oceanic Niño Index). Esse índice é calculado a partir da média móvel trimestral da anomalia de temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4, tomando como base a climatologia de 1991 a 2020.
Um “El Niño” é oficialmente declarado quando essa média trimestral fica igual ou acima de 0,5 grau Celsius acima da média por pelo menos cinco trimestres consecutivos, ou quando a tendência permanece pelos próximos meses. Além disso, as condições atmosféricas também são levadas em consideração (Figura 4). O mesmo critério vale para a La Niña, só que com anomalias negativas.

A partir do valor do ONI, os eventos são classificados em quatro categorias de intensidade, a saber: fraco, quando a anomalia fica entre 0,5 e 0,9 grau Celsius; moderado, entre 1,0 e 1,4 grau Celsius; forte, entre 1,5 e 1,9 grau Celsius; e muito forte, quando a anomalia atinge 2,0 graus Celsius ou mais. Historicamente, o mundo já registrou eventos de El Niño muito fortes em 1982 e 1983, em 1997 e 1998, e em 2015 e 2016, todos associados a grandes impactos climáticos em diferentes regiões, como secas severas na Amazônia e na Austrália e chuvas extremas na costa oeste da América do Sul.
No Brasil, o monitoramento é feito principalmente pelo CPTEC/INPE, que acompanha o desenvolvimento do fenômeno em parceria com centros internacionais.
O assunto ganhou relevância esse ano porque, desde maio de 2026, os índices Niño 3.4 confirmaram que o fenômeno não só se estabeleceu, como tem passado por uma transição rápida de fortalecimento (para entender por que o tema voltou às manchetes, veja nossa análise anterior sobre como a mídia tenta explicar o ‘super’ El Niño).
Na próxima coluna vamos entrar em detalhes do que tem acontecido desde então, que fez o fenômeno ganhar tanta visibilidade.
Referências
CPTEC/INPE. El Niño e La Niña. Disponível em: http://enos.cptec.inpe.br/. Acesso em: 24 jul. 2026.
NOAA CLIMATE PREDICTION CENTER. ONI (Oceanic Niño Index): historical episodes and strength classification. Disponível em: https://cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso/roni/strengths/. Acesso em: 24 jul. 2026.
NOAA. Climate.gov ENSO Blog. Disponível em: https://www.climate.gov/news-features/blogs/enso. Acesso em: 24 jul. 2026.
CLIMATEMPO. El Niño deve estar formado em junho e NOAA eleva para alerta risco de formação do fenômeno. Disponível em: https://www.climatempo.com.br/noticia/el-nino/el-nino-deve-estar-formado-em-junho-e-noaa-eleva-para-alerta-risco-de-formacao-do-fenomeno. Acesso em: 20 ago. 2026.
CENTRO DE PREVISÃO DE TEMPO E ESTUDOS CLIMÁTICOS (CPTEC/INPE). Monitoramento ENOS. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Disponível em: http://enos.cptec.inpe.br/. Acesso em: 20 ago. 2026.
*Camila Billerbeck é Engenheira Civil pela Escola de Engenharia de São Carlos, USP (2014). Mestre em Engenharia de recursos hídricos pelo departamento de Engenharia Hidráulica e Saneamento da Escola Politécnica (USP). Engenheira hidróloga,com experiência em projetos técnicos e consultoria em engenharia hidráulica e hidrologia para setores como infraestrutura rodoviária e mineração, e fellow da YCL. Para se conectar com a autora, acesse: https://www.linkedin.com/in/camilabillerbeck/
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