Quando a mídia tenta explicar o Super El Niño
- YCL info
- 22 de jul.
- 3 min de leitura

Na coluna desta semana quero que você reflita comigo o papel da mídia no letramento da população sobre a comunicação da emergência climática. Para isso, escolhi falar sobre o Super El Niño e o abismo que existe entre a notícia puramente factual e a análise da responsabilidade sistêmica na imprensa brasileira
Por Leslie Beatrice Diorio
Recentemente, a confirmação da chegada do El Niño pela NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) – agência governamental norte-americana especializada em questões climáticas, oceânicas e atmosféricas - ocupou as manchetes nacionais. Veículos como o portal G1 realizaram um trabalho importante de letramento climático ao explicar que, embora o El Niño seja um fenômeno natural de aquecimento das águas do Pacífico, ele agora ocorre em um "planeta já aquecido pelas mudanças climáticas". Essa distinção é crucial pois todos nós sabemos que o aquecimento global - causado pelas atividades humanas, principalmente, relacionadas ao consumo desenfreado da sociedade capitalista - funciona como o "combustível" que intensifica fenômenos que antes seriam moderados.
No entanto, quando descemos para a escala regional, aquilo que estava bom pode mudar drasticamente. Uma análise do Observatório de Jornalismo Ambiental sobre a mídia do Rio Grande do Sul, por exemplo, revela um padrão preocupante de silenciamento. Veículos de grande circulação no estado destacam os efeitos devastadores — como as chuvas intensas e inundações — mas não conectam o fenômeno às ações humanas. Ao omitirem que a crise climática é impulsionada pela emissão massiva de gases de efeito estufa, esses jornais e emissoras transmitem a ideia de que o clima é apenas uma "fatalidade da natureza" sobre a qual nada podemos fazer.
Por que essa leitura crítica é vital? Porque o jornalismo que se limita a dar apenas declarações — reproduzindo falas oficiais, sem contraponto científico — falha em sua função social. Quando a imprensa gaúcha ignora a relação entre o aquecimento dos oceanos e a matriz energética fóssil, ela protege interesses mercadológicos e despolitiza o debate. O resultado é uma população que sente o impacto no território, mas não consegue enxergar as raízes estruturais do problema.
A sociedade precisa cobrar uma visão sistêmica. Não basta saber que vai chover. Precisamos discutir por que as janelas de prevenção estão encurtando e por que o intervalo entre os “super” eventos climáticos caiu de 18 para apenas 3 anos. A única resposta eficaz, como defende a ONU, é uma ação climática que enfrente a dependência dos combustíveis fósseis. Não temos outra saída.
Ler com um olhar crítico às notícias veiculadas em jornais, revistas, rádios e portais é a nossa melhor ferramenta contra o negacionismo por omissão. Da próxima vez que ler sobre o El Niño, pergunte-se: o texto está apontando as causas ou apenas contando os prejuízos? No jogo da emergência climática, a informação que falta é tão importante quanto a que sobra.
Sobre a autora
Mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP com a dissertação "O profissional de comunicação como educador: o diálogo entre os coletivos de emergência climática e a sociedade brasileira". Este é meu título mais atual, conquistado em dezembro de 2025, resultado de um trabalho de pesquisa com comunicadores de coletivos de emergência climática do Brasil. Tenho defendido há um tempo - desde quando trabalhava em grandes organizações - o papel educativo da comunicação. Encontrei no tema emergência climática uma janela de oportunidade para aprofundar esta percepção. Também sou pós-graduada em Gestão da Comunicação Empresarial pela Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE), em Administração de Marketing pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e graduada em Comunicação Social com ênfase em Jornalismo pelo Instituto Metodista de Ensino Superior, atual Universidade Metodista de São Paulo. Entre 2002 e 2016 fui coordenadora de comunicação nas multinacionais Johnson & Johnson e Avon. Atualmente trabalho unindo as vertentes comunicação e educação na frente de educação do Grupo Report, como facilitadora e instrutora de cursos relacionados a sustentabilidade.

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