Não tem como comunicar emergência climática sem pensar em Paulo Freire
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Foi a essa conclusão que cheguei depois de estudar e pesquisar o tema para a minha dissertação de mestrado, defendida no final do ano passado, e cujos achados vou contar para vocês durante dois meses neste espaço de troca e reflexões
Por Leslie Beatrice Diorio
Era 2015 e eu estava inquieta. Tinha certeza de que meu trabalho como jornalista, coordenando a comunicação de uma multinacional, poderia ter um “quê” mais valioso do que simplesmente ser uma ponte entre a imprensa e a empresa. Há anos eu trabalhava como assessora de imprensa e vivia do relacionamento que construí com os veículos de comunicação tentando levar para eles apenas as coisas boas que a empresa que pagava meu salário queria divulgar. No fundo, aquilo já não enchia mais os meus olhos e me sentia cúmplice da falta de transparência que a grande maioria das empresas pratica em seu dia a dia.
Naquela mesma época, o tema sustentabilidade e ESG (Enviromental, Social, Governance) começou a ganhar força dentro das organizações e os relatórios que traziam dados relacionados aos aspectos ambientais, sociais e de governança passaram a ser mais um dos produtos entregues pela área de comunicação. Olhei para isso como a oportunidade que eu tanto almejava de fazer algo diferente e carregado de propósito. Sempre achei que a comunicação tivesse um papel importante ligado à educação. E comecei a pensar que, no caso de sustentabilidade, ela poderia ser sim uma via de letramento com foco nos diversos públicos de interesse da empresa.
Com o passar do tempo, novos termos passaram a fazer parte do cotidiano de quem trabalha com sustentabilidade. A exigência do mercado investidor para que as empresas divulgassem estes dados passou a ficar mais intensa. Afinal, ficou claro que grandes inundações ou secas, resultado das mudanças climáticas provocadas principalmente pela ação humana na natureza, impactam - e muito - na decisão de investir ou não em determinada organização.
Quem estuda jornalismo - como foi meu caso - não escapa da famosa aula que explica o processo da entrega de uma mensagem. Sempre vai ter o emissor e o receptor. A forma como essa mensagem é entregue define seu entendimento. E é exatamente ao pensar no “como” essa mensagem chega ao receptor que gosto de recorrer aos ensinamentos do educador Paulo Freire. Aqui, abro um parêntese para falar um pouco sobre este grande pensador.
Paulo Freire foi um dos filósofos e pedagogos mais influentes do século XX. Nascido no Recife, foi eleito Patrono da Educação Brasileira, em 2012, e se tornou mundialmente conhecido por mostrar que a educação pode e deve gerar conscientização e autonomia. Em 1963, em Angicos (RN), ele liderou uma experiência histórica alfabetizando 300 cortadores de cana em apelas 45 dias. Esta façanha foi feita substituindo o modelo tradicional de ensino - no qual o professor atua como um “depositante” de informações e o aluno como um “receptor passivo” – por um modelo onde educador e educando aprendem juntos fazendo um diálogo horizontal. Os termos “educação bancária”, que remete ao depósito feito pelos bancos, e “educação libertadora” começaram a ganhar força no ambiente acadêmico, principalmente na área de educação. Paulo Freire explicou este processo no livro Pedagogia do Oprimido, uma de suas obras mais citadas e estudadas globalmente na área de Ciências Humanas.
Bom, depois deste disclaimer necessário, voltemos ao tema da nossa coluna. Ao discutir o conceito de “educação bancária” em seu livro Pedagogia do Oprimido, Freire me inspirou a levá-lo também para o dia a dia do meu trabalho. Eu, como “comunicadora emissora”, posso simplesmente despejar informações no colo do meu “público receptor” esperando que ele entenda o que estou querendo transmitir. Ou, ao invés de apenas “depositar” as informações, posso ouvi-lo, entender seu ambiente, e convidá-lo a compreender como aquela informação influencia sua rotina. Gosto de sentir que o que faço ajuda outra pessoa a digerir a informação, não apenas engoli-la.
Isso reforça aquele meu pensamento de que unir a comunicação com a educação pode ser uma saída interessante para fazer a sociedade finalmente entender, por exemplo, a urgência climática a qual estamos submetidos atualmente. Foi no mestrado - que terminei recentemente, em dezembro de 2025 - que consegui me aprofundar neste assunto. E, qual não foi minha surpresa, descobri que há um campo na academia chamado de Educomunicação, que une as duas áreas, e que traz os ensinamentos de Paulo Freire como caminho a seguir.
A pesquisa que fiz gerou a dissertação O profissional de comunicação como educador: o diálogo entre os coletivos de emergência climática e a sociedade brasileira. Foi conversando com que faz a comunicação destas organizações que consegui comprovar a minha hipótese de que a comunicação tem um papel relevante e fundamental no letramento das populações vulneráveis que mais sofrem com os impactos causados pelas mudanças climáticas, aqueles impactos que muitas empresas se recusam a divulgar em seus relatórios de sustentabilidade.
Os coletivos que trabalham temas relacionados à emergência climática fazem um trabalho sensacional de escuta ativa e de diálogo constante com seus públicos de interesse, exatamente o que Paulo Freire propunha que o professor fizesse em sala de aula. Seus comunicadores usam a linguagem simples, exemplos do cotidiano para que a população consiga enxergar e aprender a questionar empresas e governo, sempre com o intuito de defender seus interesses.
A partir desta semana, e durante as próximas, vou convidar você a refletir comigo sobre algumas conclusões que cheguei durante este mergulho que fiz para finalizar meu mestrado. Será um exercício maravilhoso para eu continuar trabalhando com o tema, mas agora abrindo esse canal de escuta e trocas. Afinal, como ensinou Paulo Freire, é no diálogo que a gente consegue compreender momentos como o que vivemos hoje, com a emergência climática gritando com força e, mesmo assim, muitas vezes não sendo ouvida. Em uma sociedade que nos sufoca com tantas informações vindas de todos os cantos é fundamental saber separar o joio do trigo.
Sobre a autora
Mestre em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP com a dissertação "O profissional de comunicação como educador: o diálogo entre os coletivos de emergência climática e a sociedade brasileira". Este é meu título mais atual, conquistado em dezembro de 2025, resultado de um trabalho de pesquisa com comunicadores de coletivos de emergência climática do Brasil. Tenho defendido há um tempo - desde quando trabalhava em grandes organizações - o papel educativo da comunicação. Encontrei no tema emergência climática uma janela de oportunidade para aprofundar esta percepção. Também sou pós-graduada em Gestão da Comunicação Empresarial pela Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE), em Administração de Marketing pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e graduada em Comunicação Social com ênfase em Jornalismo pelo Instituto Metodista de Ensino Superior, atual Universidade Metodista de São Paulo. Entre 2002 e 2016 fui coordenadora de comunicação nas multinacionais Johnson & Johnson e Avon. Atualmente trabalho unindo as vertentes comunicação e educação na frente de educação do Grupo Report, como facilitadora e instrutora de cursos relacionados a sustentabilidade.

Parabéns! Pensamento muito além do presente. Fiquei muito empolgada em ler seu raciocínio e desenvolvimento.