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A Guerra das Narrativas: como a comunicação pode transformar a crise climática em ação coletiva


A crise climática está no preço do café, nas enchentes que paralisam cidades, nas ondas de calor, na alta do azeite, nos incêndios florestais e até no algoritmo das redes sociais. Ainda assim, mesmo diante de tantos sinais, grande parte da população continua desconectada da urgência climática. Por quê?


Essa foi uma das principais reflexões da Aula 17 do Curso da  Youth Climate Leaders (YCL) sobre mudanças climáticas, conduzida por Nina Marcucci, diretora executiva da Cuíca, e Fernanda Escóssia, jornalista e editora da Sumaúma. Ao longo do encontro, as palestrantes mostraram que a crise climática também é uma crise de comunicação. E que a forma como contamos essas histórias pode determinar o nível de mobilização social diante da emergência ambiental.


A aula revelou como narrativas, influência digital e construção de imaginário coletivo se tornaram elementos centrais na disputa pelo futuro.


A crise climática disputa atenção em um mundo saturado de conteúdo


Nina Marcucci começou sua aula falando sobre os desafios da comunicação climática.  Comunicar clima hoje significa disputar espaço em um ambiente dominado pela economia da atenção. Quando há excesso de informação, trends rápidas e conteúdos descartáveis, prender a atenção das pessoas é um dos maiores desafios da comunicação contemporânea, especialmente quando o assunto envolve ciência, política e mudanças estruturais.


Segundo Nina, durante muito tempo a comunicação climática foi construída a partir de uma lógica excessivamente técnica e racional. O problema é que dados sozinhos raramente mobilizam comportamento. As pessoas podem até entender intelectualmente a gravidade da crise climática, mas isso não significa, necessariamente, que irão agir. Para enfrentar esse desafio surgiu a Cuíca, organização especializada em campanhas de influência digital voltadas à justiça climática.


Durante a apresentação, a diretora executiva da Cuíca compartilhou um dado que ajuda a dimensionar o potencial dessa estratégia: o Brasil é atualmente o segundo país com mais influenciadores digitais do mundo, somando mais de 10 milhões de criadores de conteúdo ativos.


Agora, se a internet já influencia comportamento, consumo, estética e opinião política, por que a pauta climática ainda ocupa tão pouco espaço nesse ecossistema?



A resposta passa por um entendimento central: a comunicação climática precisa parar de falar apenas sobre “o planeta” e começar a falar sobre vida cotidiana, desejo, medo, pertencimento e experiência real.


O segredo da comunicação climática eficaz está em tornar o abstrato emocionalmente concreto



Os conteúdos climáticos mais eficazes nem sempre começam falando diretamente sobre clima. As pessoas se conectam primeiro com aquilo que conseguem sentir. Por isso, uma das estratégias mais eficientes da comunicação climática contemporânea é transformar temas abstratos em experiências concretas do cotidiano.


Ao longo da aula, Nina apresentou diferentes exemplos de narrativas que conseguiram gerar identificação justamente porque aproximaram a crise ambiental da vida comum:


  • o aumento do preço do azeite causado pelos impactos climáticos sobre plantações;

  • a alta do café e do cacau;

  • enchentes extremas que paralisaram o Rio Grande do Sul;

  • pessoas presas em estações de metrô durante alagamentos em São Paulo;

  • imagens do deserto do Atacama coberto por toneladas de lixo têxtil;

  • o cavalo Caramelo isolado sobre um telhado durante as enchentes.


Esses exemplos ajudam a entender uma lógica fundamental da comunicação contemporânea: antes de compreender tecnicamente um problema, o público precisa senti-lo.


E sentir, nesse contexto, significa perceber como a crise climática atravessa o bolso, a cidade, o consumo, a alimentação, a mobilidade e o próprio corpo.


O impacto das imagens entre mobilização e paralisia






Ao analisar imagens de tragédias ambientais recentes, Nina falou sobre os limites da comunicação baseada apenas em choque emocional.


Segundo ela, imagens fortes possuem enorme poder de mobilização porque criam identificação instantânea. O exemplo mais simbólico apresentado durante a aula foi o cavalo Caramelo, que se tornou um dos principais símbolos das enchentes no Rio Grande do Sul.


A imagem do animal isolado em cima de um telhado dispensava qualquer contextualização técnica. Ela comunicava a tragédia imediatamente. Ao mesmo tempo, Nina alertou que o excesso de imagens traumáticas pode gerar anestesia emocional e desesperança. Afinal, o medo sozinho não mobiliza as pessoas de forma sustentável.


Quando a comunicação climática trabalha apenas com colapso, catástrofe e culpa, o público tende a reagir com negação, afastamento ou sensação de impotência. Por isso, segundo ela, toda narrativa climática precisa vir acompanhada de perspectiva de ação. A esperança apareceu durante toda a aula não como ingenuidade, mas como estratégia política de mobilização.


A crítica à cultura da culpa individual



Durante décadas, campanhas ambientais concentraram esforços em pequenas ações individuais: fechar torneira, reciclar lixo, usar menos plástico ou consumir conscientemente. Embora essas práticas tenham importância, a lógica da culpa individual acaba desviando atenção das responsabilidades estruturais de governos e grandes corporações.


Ao apresentar conteúdos produzidos por influenciadores parceiros da Cuíca, a palestrante mostrou como a organização busca equilibrar responsabilidade individual e pressão sistêmica. Em um dos vídeos exibidos durante a aula, uma criadora de conteúdo falava sobre substituir produtos descartáveis no cotidiano. Porém, ao final, reforçava que mudanças reais dependem também da cobrança sobre empresas e políticas públicas.


Essa diferença é importante porque desloca a sustentabilidade de um discurso moralizante para uma discussão coletiva e política. Ou seja: mudanças individuais ajudam, mas não substituem transformações estruturais.

“Amazonizar” o olhar e mudar o centro da narrativa climática

Na segunda parte da aula, Fernanda Escóssia aprofundou a discussão a partir da experiência da Sumaúma, organização jornalística voltada à cobertura socioambiental da Amazônia.


A Amazônia não deve ser vista como periferia do mundo, mas como centro estratégico para pensar o futuro do planeta. A partir dessa lógica, Fernanda apresentou o conceito de “amazonizar” o olhar, uma proposta de comunicação que desloca o foco tradicional dos grandes centros urbanos e coloca territórios, comunidades indígenas e povos tradicionais no centro da narrativa climática. Mais do que cobrir tragédias ambientais, a proposta da Sumaúma é construir um jornalismo de presença, escuta profunda e responsabilidade territorial.


Fernanda também alertou para a evolução da desinformação climática. Segundo ela, o negacionismo atual raramente nega frontalmente a existência da crise ambiental. Hoje, a estratégia costuma aparecer de forma mais sofisticada, através do greenwashing e de discursos superficiais de sustentabilidade que atrasam mudanças estruturais reais.


A partir disso, o jornalismo climático passa a exercer um papel fundamental não apenas de informar, mas de contextualizar, investigar e disputar narrativas públicas.


Comunicação climática também é disputa de futuro


A crise climática não é apenas ambiental, econômica ou política. Ela também é narrativa. As histórias que escolhemos contar, e a forma como contamos, influenciam diretamente nossa capacidade coletiva de reagir à emergência climática. Mais do que traduzir relatórios científicos, a comunicação climática precisa criar conexão emocional, senso de pertencimento e possibilidade de ação.


E talvez esse tenha sido o principal aprendizado da Aula 17: as pessoas dificilmente lutam por futuros que não conseguem imaginar. Por isso, comunicar sobre o clima hoje também significa reconstruir esperança, criatividade e imaginação política. Não uma esperança ingênua, mas uma esperança capaz de transformar urgência em movimento coletivo. Porque, no fim das contas, a disputa climática também é uma disputa sobre quais futuros ainda somos capazes de enxergar.


Saiba mais sobre as palestrantes: 


Nina Marcucci

É comunicadora, ativista e especialista em conteúdo criativo com propósito. Historiadora pela UNIRIO, mestre pela PUC-Rio e designer em sustentabilidade pelo Gaia Education, também se formou em Liderança Evolutiva pela Cuidadoria. Atuou por quatro anos como liderança de conteúdo do Menos 1 Lixo, a maior plataforma de educação ambiental do Brasil, onde desenvolveu habilidades em gestão, mobilização de redes e cuidado de equipes. Hoje, é professora de Economia e Ativismo no Ensino Médio e diretora executiva da Cuíca, onde há 3 anos une narrativas, estratégia e ação para construir futuros mais justos e possíveis através do mercado de influência e de comunidades.



Fernanda da Escóssia

Editora em Sumaúma e sementora do Micélio, programa de coformação de de jornalistas-floresta. Acompanha a produção, a redação e a edição de reportagens, e participou da cobertura da COP30. Fernanda é professora do curso de Jornalismo da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e da pós-graduação em Jornalismo Cultural. Cordena a Agenc (Agência de Notícias Científicas), projeto de jornalismo científico e socioambiental. É doutora em História (FGV/CPDOC) e mestra em Comunicação (UFRJ). Autora de "Invisíveis: uma etnografia sobre brasileiros sem documento". Antes de Sumaúma, trabalhou em O Globo, Folha de S.Paulo, revista Piauí e Aos Fatos.




Texto escrito por Daphne Maria, Jornalista pela Universidade Federal de Alagoas, Diretora Executiva do Olhos Jornalismo e Fellow da 14ª edição do curso da Youth Climate Leaders – Mudanças Climáticas: panorama, desafios e oportunidades para jovens profissionais.


Conecte-se com a autora no LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/daphne-maria-382786178/

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