Série El Niño 2026 - Estratégias de mitigação e adaptação aos impactos climáticos
Este é o quinto post da série sobre o El Niño 2026. Acompanhe outros textos aqui no blog e vídeos nas redes sociais para conhecer melhor o fenômeno que tem movimentado a mídia e já mostra consequências.

Texto escrito por Camila Billerbeck*
Diante de um El Niño confirmado e que, segundo a NOAA tem grandes chances de atingir intensidade muito forte, com pico ao final de 2026 e início de 2027, é importante a reflexão: é possível reduzir os riscos antes que os impactos cheguem? E para isso, precisamos falar também sobre as mudanças climáticas.
El Niño e mudanças climáticas
Embora o El Niño não seja diretamente causado pelas mudanças climáticas, isso não significa que elas sejam irrelevantes para o fenômeno. Simulações de modelos climáticos indicam que o aumento dos gases de efeito estufa pode alterar o comportamento do El Niño, os modelos que melhor representam a sua dinâmica tendem a projetar aumento da magnitude de El Niños, em um clima cada vez mais quente (CAI et al., 2021). Trata-se de um tema que envolve incertezas, entretanto, as projeções indicam que as mudanças climáticas podem contribuir para tornar o El Niños extremos mais frequentes (CAI et al., 2014).
Os efeitos do El Niño sobre a temperatura não se encerram com o fim do evento em si. De acordo com a WMO o fenômeno tende a atingir seu pico entre novembro e fevereiro e seu impacto sobre as temperaturas globais pode se estender além do período de maior aquecimento do oceano, o efeito sobre a temperatura média do planeta costuma ser mais pronunciado no ano seguinte ao de seu desenvolvimento.
O último El Niño de 2023, ocorrido entre junho de 2023 e abril de 2024, apresentou essa essa relação. O ano de 2024 foi o ano mais quente em relação à média de 1951 a 1980, superando o recorde de 2023. O El Niño de 2023 ajudou a elevar as temperaturas acima dos recordes anteriores (Figura 1). Entretanto, é importante destacar que o El Niño sozinho não explica os recordes de temperatura. A WMO conclui que as temperaturas extremas alcançadas em 2024 decorreram da combinação entre o El Niño de 2023, de categoria “forte”, somado às mudanças climáticas. Ou seja, o El Niño soma calor a um planeta que já está mais quente.

Como o El Niño atual deve atingir intensidade “muito forte” e ter seu pico ao final de 2026, com impactos que devem se prolongar ao longo de 2027 (WMO, 2026b), temperaturas mais altas nos meses e no ano seguintes ao fenômeno, devem ser consideradas.
Mitigação e adaptação
Diante desse cenário, dois conceitos são centrais no debate climático: mitigação e adaptação.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) define mitigação como uma intervenção humana para reduzir as emissões ou ampliar os sumidouros de gases de efeito estufa e adaptação, em sistemas humanos, como o processo de ajuste ao clima atual ou esperado e a seus efeitos, com o objetivo de moderar danos ou aproveitar oportunidades benéficas. Na legislação brasileira, a Lei nº 12.187/2009, que instituiu a Política Nacional sobre Mudança do Clima, define adaptação como iniciativas e medidas para reduzir a vulnerabilidade dos sistemas naturais e humanos frente aos efeitos atuais e esperados da mudança do clima, e mitigação como mudanças e substituições tecnológicas que reduzam o uso de recursos e as emissões por unidade de produção, bem como medidas que reduzam as emissões de gases de efeito estufa e aumentem os sumidouros. Sumidouro são sistemas naturais ou artificiais que absorvem mais dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera, do que emitem. Em outras palavras, mitigação se refere às ações que reduzem as causas da mudança climática, como a diminuição de emissões de gases de efeito estufa, enquanto adaptação se refere às ações que preparam pessoas, cidades e sistemas para conviver com impactos que já podem ser considerados inevitáveis, como chuvas mais intensas, secas mais longas e ondas de calor mais frequentes.
As definições estão resumidas na Figura 2.

Iniciativas como a plataforma pública AdaptaBrasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, reúne índices e indicadores em temas como recursos hídricos, segurança alimentar, saúde e desastres geo-hidrológicos, para conhecer o risco climático de cada município brasileiro.
No caso específico do El Niño, algumas estratégias de adaptação já vêm sendo recomendadas por organismos internacionais e nacionais, entre elas o reforço de sistemas de alerta antecipado e monitoramento hidrometeorológico, a atualização de planos municipais de contingência para enchentes e deslizamentos, o planejamento agrícola considerando o risco de seca ou excesso de chuva conforme a região, o fortalecimento da defesa civil e dos serviços de saúde e saneamento, e a gestão mais criteriosa de reservatórios e recursos hídricos, especialmente em bacias sensíveis à variabilidade climática. O Painel El Niño 2026-2027, tem atuado na disseminação de informações e orientações nesse sentido.
Eleições e clima
Para nós, pessoas preocupadas com a agenda climática, esse assunto passa necessariamente pelas urnas. As próximas eleições no Brasil ocorrerão em 4 de outubro, para eleição de presidente da República, governadores, senadores e deputados federais e estaduais ou distritais. Uma pesquisa da Ipsos encomendada pelo Observatório do Clima, rede de organizações da sociedade civil, ouviu 1.800 brasileiros entre 17 e 20 de agosto e apontou que 91% consideram importante que os candidatos apresentem propostas para enfrentar as mudanças climáticas, e que 79% defendem que o tema seja priorizado mesmo que isso implique custos econômicos.
Pensando nisso, o Observatório do Clima analisou como os planos de governo dos seis candidatos à Presidência com mais de 1% nas pesquisas tratam a agenda socioambiental. Vale a pena ler a publicação completa, e entender quais as propostas dos candidatos.
A nossa jornada nessa série chegou ao fim..! Mas não termina por aqui, entender o fenômeno é apenas o primeiro passo, agir com antecedência é o que ajuda de verdade na prevenção de impactos. Por isso, convidamos você a continuar acompanhando os boletins do INPE, a descobrir quais os riscos climáticos que o seu município está sujeito (Plataforma AdaptaBrasil), e o que tem sido feito na sua região em termos de mitigação e adaptação. Como cidadãos e disseminadores da agenda climática, cabe a nós conhecer, perguntar, acompanhar e cobrar.
Referências
ADAPTABRASIL MCTI. AdaptaBrasil MCTI: índices e indicadores de risco de impactos das mudanças climáticas no Brasil, integrados em uma única plataforma. Brasília, DF: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, 2026. Disponível em: https://adaptabrasil.mcti.gov.br/.
BRASIL. Lei nº 12.187, de 29 de dezembro de 2009. Institui a Política Nacional sobre Mudança do Clima - PNMC e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2009. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l12187.htm.
CAI, W. et al. Increasing frequency of extreme El Niño events due to greenhouse warming. Nature Climate Change, v. 4, n. 2, p. 111-116, 2014. DOI: 10.1038/nclimate2100.
CAI, W. et al. Changing El Niño-Southern Oscillation in a warming climate. Nature Reviews Earth & Environment, v. 2, n. 9, p. 628-644, 2021. DOI: 10.1038/s43017-021-00199-z.
INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE). Painel El Niño 2026-2027: terceiro boletim sobre o monitoramento do fenômeno no Brasil é publicado. Brasília, DF: INPE, 2 set. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/painel-el-nino-2026-2027-terceiro-boletim-sobre-o-monitoramento-do-fenomeno-no-brasil-e-publicado.
INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Annex I: Glossary. In: MASSON-DELMOTTE, V. et al. (ed.). Global warming of 1.5°C: an IPCC special report on the impacts of global warming of 1.5°C above pre-industrial levels and related global greenhouse gas emission pathways. Cambridge: Cambridge University Press, 2018. p. 541-562. DOI: 10.1017/9781009157940.008. Disponível em: https://www.ipcc.ch/sr15/chapter/glossary/.
NASA EARTH OBSERVATORY. 2024 was the warmest year on record. NASA Science, Washington, DC, 11 jan. 2025. Atualizado em 12 jun. 2026. Disponível em: https://science.nasa.gov/earth/earth-observatory/2024-was-the-warmest-year-on-record-153806/.
NATIONAL OCEANIC AND ATMOSPHERIC ADMINISTRATION (NOAA). Climate Prediction Center. El Niño/Southern Oscillation (ENSO) diagnostic discussion. College Park: NOAA, 10 set. 2026. Disponível em: https://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso_advisory/ensodisc.shtml.
OBSERVATÓRIO DO CLIMA. Análise de planos de governo: Eleições 2026. [S. l.]: Observatório do Clima, 2026a. Disponível em: https://oc.eco.br/wp-content/uploads/2026/09/Analise-de-Planos-de-Governo-Eleicoes-2026_f.pdf.
OBSERVATÓRIO DO CLIMA. Maioria dos presidenciáveis ignora urgência da crise climática e ambiental. [S. l.]: Observatório do Clima, 10 set. 2026b. Disponível em: https://oc.eco.br/maioria-dos-presidenciaveis-ignora-urgencia-da-crise-climatica-e-ambiental/.
WORLD METEOROLOGICAL ORGANIZATION (WMO). El Niño set to become very strong, raising risks of extreme weather into 2027. Genebra: WMO, 2026b. Disponível em: https://wmo.int/news/media-centre/el-nino-set-become-very-strong-raising-risks-of-extreme-weather-2027
*Camila Billerbeck é Engenheira Civil pela Escola de Engenharia de São Carlos, USP (2014). Mestre em Engenharia de recursos hídricos pelo departamento de Engenharia Hidráulica e Saneamento da Escola Politécnica (USP). Engenheira hidróloga,com experiência em projetos técnicos e consultoria em engenharia hidráulica e hidrologia para setores como infraestrutura rodoviária e mineração, e fellow da YCL. Para se conectar com a autora, acesse: https://www.linkedin.com/in/camilabillerbeck/
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