Transição energética no Brasil: por que ela ainda é uma disputa por território e justiça
- YCL info
- 16 de abr.
- 5 min de leitura
Entenda os desafios da transição energética brasileira, os limites do modelo atual e como desigualdades estruturais impactam o acesso à energia no país.

O que é transição energética e por que ela vai além da tecnologia?
A transição energética costuma ser definida como a substituição de fontes fósseis por renováveis, com o objetivo de reduzir as emissões de gases de efeito estufa. A definição está correta, mas não dá conta da complexidade do problema.
No Brasil, a discussão envolve mudanças estruturais profundas na forma como a energia é produzida, distribuída e consumida. Os debates da Aula 9 do curso da Youth Climate Leaders mostram que essa transformação não ocorre de maneira linear, nem isolada. Ela exige velocidade, escala e a combinação de diferentes soluções atuando simultaneamente.
Para limitar o aquecimento global a 1,5 °C, seria necessário repetir, todos os anos até 2030, reduções de emissões equivalentes às registradas durante a pandemia de COVID-19. Esse dado desloca a transição energética do campo da inovação para o da reorganização sistêmica, em que decisões técnicas, econômicas e políticas passam a ter o mesmo peso.
Matriz energética no Brasil: a diferença entre percepção e realidade

Durante a aula, a engenheira Julia da Rosa Howat Rodrigues destaca que a matriz energética no Brasil costuma ser analisada a partir da matriz elétrica, marcada pela forte presença de fontes renováveis como hidrelétricas, eólica e solar. Esse recorte sustenta a ideia de que o país é uma referência global em energia limpa.
O problema é que essa leitura considera apenas uma parte do sistema. A matriz elétrica se restringe à geração de eletricidade, enquanto a matriz energética inclui todos os usos de energia: transporte, indústria e consumo cotidiano. Quando essa ampliação é feita, a percepção muda. O que parecia liderança passa a revelar um equilíbrio entre fontes renováveis e fósseis.
Esse “empate técnico” evidencia uma dependência ainda significativa de petróleo e derivados, especialmente no setor de transportes. Mais do que um dado isolado, isso revela como a estrutura energética brasileira ainda está ancorada em modelos difíceis de transformar rapidamente.
Quais são os principais desafios da transição energética no Brasil?
As principais questões da transição energética no Brasil estão concentradas em setores que sustentam o funcionamento da economia. O transporte lidera tanto o consumo de energia quanto as emissões de CO₂, impulsionado por uma frota predominantemente movida a diesel e gasolina.
Essa dependência não é apenas uma escolha energética. É resultado de uma estrutura consolidada ao longo do tempo, que envolve infraestrutura, logística e padrões de consumo. Transformar esse cenário exige mais do que tecnologia: exige mudanças profundas na organização do sistema.
A indústria enfrenta um desafio semelhante. A idade média das máquinas no país gira em torno de 17 anos, enquanto em economias como Estados Unidos e Alemanha varia entre 5 e 7 anos. Esse descompasso reduz a eficiência energética, aumenta o consumo e dificulta a redução de emissões, reforçando a necessidade de modernização e investimento contínuo.
Transição energética: entre substituição de fontes e eficiência

A substituição de fontes fósseis por renováveis é apenas uma parte da equação. A eficiência energética desempenha um papel igualmente relevante, ao permitir que o mesmo resultado seja alcançado com menor consumo de energia. Em muitos casos, esse ganho pode gerar impactos tão significativos quanto a adoção de novas fontes.
A diversificação da matriz também se torna essencial para garantir estabilidade ao sistema. Fontes como solar e eólica são intermitentes, o que exige soluções complementares capazes de equilibrar oferta e demanda ao longo do tempo.
Tecnologias como armazenamento de energia, baterias e hidrogênio verde ganham protagonismo nesse cenário, especialmente em setores de difícil eletrificação. A transição energética não se resolve com uma única alternativa, mas com a integração de diferentes soluções operando de forma simultânea.
Crescimento da demanda energética no Brasil e os riscos para o futuro

A demanda por energia no Brasil deve crescer de forma significativa nas próximas décadas. A expectativa é que o consumo de eletricidade possa triplicar até 2050, impulsionado pelo desenvolvimento econômico e pela ampliação do acesso.
Esse crescimento coloca o país diante de uma encruzilhada. Ele pode acelerar o processo de descarbonização ou aprofundar a dependência de combustíveis fósseis, dependendo das escolhas feitas ao longo do caminho.
A direção não é determinada apenas pela disponibilidade de recursos, mas pelas decisões políticas e econômicas que orientam o setor. Nesse ponto, a transição energética deixa de ser uma questão exclusivamente técnica e passa a refletir prioridades de desenvolvimento.
Transição energética e desigualdade no Brasil: limites do modelo atual

A transição energética no Brasil também expõe desigualdades estruturais que não podem ser resolvidas apenas com inovação tecnológica. O próprio termo “transição energética”, criado na década de 1970 como alternativa à ideia de “crise energética”, revela que essa agenda sempre esteve associada a disputas de narrativa.
Hoje, essas disputas se materializam em desigualdades concretas. Enquanto grandes centros urbanos convivem com desperdício de energia, cerca de 1 milhão de pessoas na Amazônia ainda vivem sem acesso básico à eletricidade.
Esse contraste evidencia que o desafio não está apenas na capacidade de gerar energia, mas na forma como ela é distribuída e acessada. A transição energética, nesse sentido, também é um problema de equidade.
Território e justiça energética: quem decide sobre a energia no Brasil

Segundo o palestrante Talyson Sousa, a transição energética no Brasil passa diretamente pelo território. Na lógica tradicional do setor elétrico, ele é tratado como um recurso estratégico, voltado à exploração de fontes naturais como vento, água e radiação solar.
Na perspectiva da justiça climática, o território assume outro significado. Ele é compreendido como espaço de vida, onde se desenvolvem relações sociais, culturais e econômicas que não podem ser dissociadas dos projetos energéticos.
Essa mudança de visão redefine o papel das comunidades, que deixam de ser periféricas e passam a ocupar o centro das decisões. O princípio do consentimento livre, prévio e informado se torna fundamental para garantir essa participação, embora sua aplicação ainda seja limitada.
Sem esse processo, a expansão de energia renovável corre o risco de reproduzir desigualdades históricas, mesmo dentro de um modelo considerado sustentável.
O futuro da transição energética: entre potencial e decisão
O Brasil reúne condições para liderar a transição energética global, com ampla disponibilidade de recursos naturais e diversidade de fontes. Ainda assim, esse potencial não garante, por si só, um modelo justo e sustentável.
A redução de emissões em escala compatível com as metas climáticas exige articulação entre tecnologia, investimento e políticas públicas. Ao mesmo tempo, a discussão retorna ao cotidiano da população, onde energia justa está diretamente relacionada ao acesso e à capacidade de pagamento.
A transição energética não se limita à mudança da matriz. Ela envolve decisões sobre desenvolvimento, distribuição de recursos e inclusão social. Sem enfrentar essas dimensões, a transição energética pode acontecer, mas, sem enfrentar as desigualdades estruturais, ela dificilmente será uma transição justa.
Saiba mais sobre as pessoas palestrantes:

Julia da Rosa Howat Rodrigues
Engenheira mecânica formada pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, com mestrado em energias renováveis pela mesma instituição. Sua experiência profissional se deu no setor elétrico, tendo atuado na distribuição e geração de energia elétrica. Atualmente lidera a equipe de PDI e Novos Negócios da CTG Brasil, multinacional chinesa e 3ª maior empresa de geração de energia renovável no Brasil, sendo responsável por implementar e gerir a estratégia de inovação da companhia, envolvendo a prospecção, avaliação e gestão de projetos de novos produtos e serviços que gerem benefícios para a empresa e para a sociedade.

Talyson Sousa
Formado em Administração pela Universidade de Brasília, atua no Litro de Luz Brasil desde 2019. Há mais de três anos é Coordenador da área de Desenvolvimento Social da organização, com foco na gestão de lideranças locais, relacionamento comunitário e mensuração de impacto. Atua na articulação entre soluções energéticas e impacto social, acreditando que a transição energética só é justa quando coloca as pessoas no centro das soluções.
Texto escrito por Daphne Maria, Jornalista pela Universidade Federal de Alagoas, Diretora Executiva do Olhos Jornalismo e Participante da 14ª edição do curso da Youth Climate Leaders – Mudanças Climáticas: panorama, desafios e oportunidades para jovens profissionais.
Conecte-se com a autora no LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/daphne-maria-382786178/




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