Por que os impactos do clima são desiguais?
- YCL info
- há 6 dias
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A crise climática costuma ser descrita em números: metas de redução de emissões, acordos internacionais e projeções de temperatura. Mas, fora desses indicadores, seus efeitos têm endereço e seguem um padrão conhecido.
No Brasil, eventos extremos não atingem todos da mesma forma. Eles se concentram onde a infraestrutura é mais frágil, onde o acesso a direitos é mais limitado e onde decisões históricas já desenharam cenários de maior vulnerabilidade.
Foi a partir dessa constatação que a Aula 11 do curso da Youth Climate Leaders (YCL) organizou sua discussão em torno de uma pergunta: quem mais sofre com esses impactos?
Ao deslocar o debate para o território, a aula evidenciou que regiões como Amazônia, Nordeste e periferias urbanas não apenas enfrentam riscos distintos, mas compartilham uma mesma base: desigualdades estruturais que influenciam quem está mais exposto e quem está mais protegido.
Comunicação, território e a disputa por narrativa

A jornalista Andreia Coutinho Louback, fundadora do Centro Brasileiro de Justiça Climática, abriu o encontro com uma provocação: é preciso territorializar o debate. Isso significa reconhecer que a experiência de quem vive na Amazônia é diferente da de quem habita grandes centros urbanos ou áreas periféricas.
Ao longo da aula, Andreia destacou que a forma como o tema é comunicado influencia diretamente quais questões ganham visibilidade. Mais do que informar, a comunicação ajuda a definir prioridades.
Aqui a ideia de que “comunicação é poder” aparece como um ponto-chave. Quando determinadas vozes não são incluídas, problemas deixam de ganhar relevância pública e tendem a ser subestimados ou ignorados.
Essa ausência impacta não apenas a narrativa, mas também as respostas construídas.
Racismo ambiental e a ausência nos espaços de decisão

O termo, cunhado nos anos 1980, ajuda a explicar por que comunidades negras, periféricas e tradicionais concentram maior exposição a riscos e, ao mesmo tempo, têm menor participação nos processos decisórios.
Essa dinâmica vai além da presença de poluição ou da degradação ambiental. Ela envolve também quem participa da elaboração de políticas, quem tem acesso a direitos e quem consegue influenciar decisões.
Durante a discussão, essa relação foi sintetizada na ideia da “caneta”, uma metáfora para o poder de decidir. Em muitos casos, quem sofre os impactos mais intensos não está presente nos espaços onde as soluções são definidas.
Exemplos concretos ajudam a ilustrar esse cenário. A ativista ugandense Vanessa Nakate, por exemplo, foi cortada de uma foto com outros líderes climáticos em Davos, evidenciando como vozes do Sul Global ainda são frequentemente invisibilizadas no debate internacional.
Quando o território define o nível de vulnerabilidade

Ao conectar esses elementos, Mahryan Sampaio, Embaixadora da Juventude da ONU e diretora do Instituto Perifa Sustentável, mostrou que os efeitos do clima são atravessados por desigualdades estruturais. Enquanto alguns territórios contam com planejamento urbano, acesso a serviços básicos e capacidade de adaptação, outros convivem com escassez de água, calor intenso e ocupações em áreas de risco.
Essas diferenças não surgem de forma isolada. Elas são resultado de processos históricos que distribuíram recursos de maneira desigual e seguem influenciando quem está mais protegido e quem permanece em situação de maior vulnerabilidade. Dessa forma, eventos extremos não criam essas disparidades, mas as intensificam.
Soluções que nascem nos territórios

Apesar do cenário desafiador, a aula também destacou caminhos possíveis, projetos apresentados durante o encontro mostram como respostas locais têm contribuído para enfrentar essas desigualdades.
Na Amazônia, iniciativas de infraestrutura básica, como acesso à água e energia em escolas ribeirinhas, impactam diretamente a qualidade de vida e a saúde das populações. Ferramentas como o Mapa de Conflitos da Fiocruz e o IVECAD utilizam dados públicos para identificar padrões de vulnerabilidade e apoiar a formulação de políticas mais direcionadas. Já plataformas colaborativas, como o Atlas de Baixadas, funcionam como espaços de registro e monitoramento, onde moradores mapeiam alagamentos e outros eventos, fortalecendo a memória e a atuação local.
Essas experiências indicam que o enfrentamento desse cenário passa tanto por inovação quanto por decisões que ampliem o acesso a direitos básicos.
Mais do que um desafio ambiental

Ao longo da aula, ficou evidente que o debate sobre o clima não pode ser dissociado das desigualdades sociais.
No Brasil, isso implica discutir distribuição de recursos, acesso à infraestrutura e participação nos espaços de decisão..
O que está em jogo?
Mais do que um problema ambiental, o tema da Aula 11 do Curso da YCL envolve disputas por poder, visibilidade e tomada de decisão.
Embora tenha dimensão global, seus efeitos continuam sendo vividos de forma local e desigual. Compreender essa dinâmica é um passo essencial para construir respostas que não apenas reduzam impactos, mas também enfrentem as estruturas que os tornam mais intensos para parte da população.
Saiba mais sobre as palestrantes:

Andreia Coutinho Louback
Jornalista formada pela PUC-Rio e mestra em Relações Étnico-raciais pelo CEFET/RJ, é uma das principais especialistas brasileiras na intersecção entre raça, gênero e classe dentro da agenda climática. Com trajetória internacional como bolsista Fulbright na UC Davis, fundou o primeiro Centro Brasileiro de Justiça Climática dedicado à população negra. Sua atuação de destaque inclui a autoria de estudos fundamentais para o Observatório do Clima e para a Casa Fluminense, além de compor conselhos estratégicos de instituições como Action Aid, Columbia Global Centers e a Prefeitura do Rio de Janeiro.

Mahryan Sampaio
É ativista climática, Embaixadora da Juventude da ONU e internacionalista com especialização em Direitos Humanos pela UNIFESP. Como cofundadora e Diretora de Incidência Política do Instituto Perifa Sustentável, lidera a mobilização de jovens para uma agenda climática justa e inclusiva. Sua atuação estratégica estende-se a órgãos consultivos, sendo conselheira do FunBEA e integrante do Youth Sounding Board Brazil, onde assessora os acordos de cooperação entre o Brasil e a União Europeia.
Texto escrito por Daphne Maria, Jornalista pela Universidade Federal de Alagoas, Diretora Executiva do Olhos Jornalismo e Participante da 14ª edição do curso da Youth Climate Leaders – Mudanças Climáticas: panorama, desafios e oportunidades para jovens profissionais.
Conecte-se com a autora no LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/daphne-maria-382786178/




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