O oceano pode salvar o clima?
- YCL info
- 23 de abr.
- 5 min de leitura
A décima aula do curso YCL sobre mudanças climáticas marcou não apenas a metade da jornada do curso, mas também um momento de virada na forma de enxergar as mudanças climáticas. Com o tema “Papel dos Oceanos na Mitigação das Mudanças Climáticas”, o encontro trouxe uma abordagem provocativa e, ao mesmo tempo, necessária: entender o oceano não apenas como parte do problema do clima, mas principalmente como parte da solução.
A aula contou com a participação de Jemilli Castiglioni Viaggi, ecóloga com atuação em diplomacia científica, políticas públicas e conservação marinha, e Isadora Timbó, oceanógrafa com ampla experiência em projetos socioambientais e planejamento energético. Juntas, elas conduziram uma discussão que conectou ciência, política, economia e território, mostrando que a crise climática é muito mais complexa do que costuma parecer.
Uma provocação necessária
Logo nos primeiros minutos, a aula já trouxe um tom diferente. Em vez de começar com conceitos técnicos, Jemilli optou por uma reflexão direta e quase provocativa: como é cansativo viver o aquecimento global. Essa fala, simples e potente, abriu espaço para um entendimento mais humano da crise climática. Não se trata apenas de dados ou gráficos, trata-se de uma realidade vivida, sentida e cada vez mais presente no cotidiano.

A partir daí, a palestrante propôs uma mudança de perspectiva:
E se a crise climática não fosse apenas ambiental?
Uma crise que vai além do clima
Ao longo da aula, ficou claro que reduzir as mudanças climáticas a um problema ambiental é limitar a compreensão do que realmente está em jogo.
Jemilli destacou que estamos vivendo um momento em que clima, guerra, economia e desigualdade estão profundamente interligados. A crise climática, nesse sentido, se revela como um fenômeno sistêmico, atravessado por interesses políticos, decisões econômicas e dinâmicas sociais. Entre os pontos abordados, um dos mais marcantes foi a relação entre conflitos globais e clima. A aula trouxe exemplos de como as guerras impactam diretamente as emissões de carbono, o uso de combustíveis fósseis e até mesmo a segurança alimentar global.

Essa conexão amplia o debate: não basta pensar em soluções ambientais isoladas se o mundo continua operando sob lógicas que reforçam a crise.
O oceano como protagonista climático
Se por um lado o cenário apresentado é complexo, por outro, a aula também trouxe um elemento central de esperança: o oceano.
Foi reforçado que os oceanos:
Cobrem cerca de 71% da superfície terrestre
Absorvem aproximadamente 90% do calor gerado pelo efeito estufa
Produzem mais de 50% do oxigênio do planeta
Ou seja, o oceano é um dos principais reguladores do clima global.

Mais do que isso, ele atua como um gigantesco sumidouro de carbono, especialmente por meio de ecossistemas como manguezais, pradarias marinhas e recifes de corais.
Um dos pontos mais interessantes foi a explicação sobre o chamado carbono azul, que representa o carbono capturado e armazenado por ecossistemas marinhos. Esse conceito reforça o valor estratégico da conservação desses ambientes, não apenas ambiental, mas também econômico.
Governança e exploração dos oceanos
Apesar de sua importância, os oceanos enfrentam um grande desafio: a falta de governança.
Grande parte das áreas marinhas está localizada em águas internacionais, o que dificulta a regulamentação e o controle sobre seu uso. Esse cenário se conecta diretamente com o conceito da “tragédia dos comuns”, em que recursos compartilhados tendem a ser explorados de forma excessiva.

Esse ponto trouxe uma reflexão importante: Se ninguém “é dono”, quem é responsável por cuidar? A resposta, como discutido na aula, passa por acordos globais, políticas públicas mais robustas e, principalmente, por uma mudança de mentalidade em relação ao valor dos recursos naturais.
Da teoria à implementação
Se a primeira parte da aula trouxe o diagnóstico, a participação de Isadora Timbó aprofundou o debate ao apresentar os caminhos possíveis para atuação prática. Sua fala partiu de um ponto fundamental: a crise climática não será resolvida por soluções isoladas ou setoriais. A partir de sua experiência em projetos financiados por instituições internacionais e iniciativas voltadas à adaptação climática, Isadora destacou que a efetividade das soluções depende da articulação entre múltiplos atores e escalas.

Integração com estratégia
Um dos conceitos centrais apresentados foi a necessidade de integração entre:
Ciência (produção de conhecimento técnico)
Políticas públicas (instrumentos de implementação)
Financiamento climático (viabilização das ações)
Engajamento comunitário (legitimidade e eficácia no território)
Essa articulação é o que permite que soluções deixem de ser apenas propostas e passem a gerar impacto real.
O território como ponto de partida
Outro eixo fundamental da fala de Isadora foi o território.

Ao contrário de abordagens generalistas, ela reforçou que as soluções climáticas precisam ser territorializadas. Isso significa considerar:
As características socioambientais locais
As vulnerabilidades específicas de cada região
O conhecimento tradicional e comunitário
As dinâmicas econômicas existentes
Essa perspectiva desloca o foco de soluções globais padronizadas para estratégias adaptadas à realidade de cada contexto.
Conhecimento local e construção coletiva
Um dos pontos mais potentes da fala foi a valorização do conhecimento local. Isadora destacou que comunidades que vivem diretamente os impactos das mudanças climáticas possuem saberes fundamentais para a construção de soluções mais eficazes. Nesse sentido, a colaboração deixa de ser apenas um conceito e passa a ser uma condição necessária para o sucesso das iniciativas.
O papel do financiamento climático
Outro aspecto aprofundado foi o papel do financiamento climático. Mais do que disponibilidade de recursos, Isadora trouxe a reflexão sobre como e para onde esses recursos são direcionados. Projetos que não consideram o território ou não envolvem os atores locais tendem a ter menor efetividade. Assim, o financiamento precisa estar alinhado com estratégias integradas e de longo prazo.
Desafios estruturais
Mesmo com caminhos possíveis, a aula também evidenciou desafios importantes:
Falta de governança em áreas oceânicas internacionais
Dificuldade de articulação entre diferentes setores
Desigualdade no acesso a recursos e financiamento
Desconexão entre tomada de decisão e realidade local
Esses fatores mostram que a solução não depende apenas de conhecimento técnico, mas de mudanças estruturais.
A aula deixa uma série de reflexões que permanecem:
A crise climática é sistêmica e exige respostas integradas
O oceano é um dos principais aliados na mitigação
A conservação marinha é estratégica para o equilíbrio global
Soluções eficazes precisam ser territorializadas
A integração entre ciência, política e sociedade é essencial
O conhecimento local é um ativo central, não complementar
Talvez o maior aprendizado seja compreender que a complexidade do problema exige a mesma complexidade nas soluções.
Entre consciência e ação
A aula se encerra com uma provocação que sintetiza todo o encontro:
Se já sabemos o papel central do oceano e já entendemos os caminhos para atuação, o que ainda impede a transformação em escala?
A resposta não é simples, mas passa, necessariamente, por colaboração, integração e mudança de perspectiva. Mais do que nunca, fica evidente que enfrentar a crise climática não é apenas uma questão ambiental. É uma escolha coletiva sobre o futuro que queremos construir.

Saiba mais sobre as palestrantes

Jemilli Castiglioni Viaggi
Bióloga marinha e doutora em Ecologia pela UFRJ, atua com diplomacia científica, políticas públicas, conservação marinha e sustentabilidade. Membro da Secretaria Executiva da Liga das Mulheres pelo Oceano, coordena o GT-COP 30 e se dedica à promoção da Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável. Articula redes como a Rede Oceano Limpo e integra iniciativas globais pela saúde dos oceanos

Isadora Timbó
Oceanógrafa e mestre em Planejamento Energético com ênfase ambiental, atua há mais de 15 anos em projetos socioambientais voltados à adaptação climática, gestão de riscos e desastres, conservação da biodiversidade e economia azul. É Diretora Geral da GITEC Brasil, onde coordena projetos financiados por instituições como Banco Mundial, KfW e GIZ, com foco em clima, oceano, território e desenvolvimento sustentável. Integra redes como a Liga das Mulheres pelo Oceano e a Youth Climate Leaders, atuando na interface entre ciência, políticas públicas, financiamento climático e engajamento comunitário. É entusiasta de abordagens colaborativas e da valorização do conhecimento local para fortalecer a resiliência costeira e climática.
Texto escrito por Tássio Vinicius Publicitário e participante da 14ª edição do curso da Youth Climate Leaders – Mudanças Climáticas: panorama, desafios e oportunidades para jovens profissionais. Atua com comunicação de causas, buscando fortalecer iniciativas que geram impacto social e ambiental.
Conecte-se com o autor no LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/tassiovinicius/




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