Entre Conflitos e Consensos: Como o Mundo Negocia o Futuro do Clima
- YCL info
- 27 de mar.
- 4 min de leitura
A quarta aula do curso da Youth Climate Leaders fez um mergulho nos bastidores das decisões que moldam o futuro do planeta. Com o tema “Política Internacional das Mudanças Climáticas”, o encontro foi conduzido por André de Castro dos Santos e Maria Gabriella Rodrigues de Souza, que trouxeram conhecimento técnico e uma narrativa envolvente sobre como as negociações climáticas acontecem na prática.
O clima como tema global e transversal
A aula começou com uma provocação importante: mudanças climáticas não são apenas uma questão ambiental. Os palestrantes mostraram como o tema atravessa áreas como direitos humanos, segurança internacional e comércio, ampliando a complexidade das negociações.
Exemplos concretos ajudaram a ilustrar essa conexão. Eventos climáticos extremos podem forçar populações a migrar, gerando crises humanitárias. Ao mesmo tempo, países que produzem com mais emissões podem ter vantagens econômicas, criando tensões no comércio global. Desde o início, ficou claro que discutir clima é, inevitavelmente, discutir poder e desigualdade.
Uma linha do tempo de disputas e avanços
O desenvolvimento da aula seguiu por uma linha histórica que ajudou a entender como o regime climático internacional foi construído ao longo do tempo. O primeiro marco foi a Conferência de Estocolmo, em 1972. Mais do que um evento ambiental, ela revelou um conflito que persiste até hoje: o embate entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental. Um dos momentos mais marcantes foi a menção ao posicionamento do Brasil na época, defendendo que o crescimento deveria vir antes das preocupações ambientais, uma fala que hoje soa provocativa, mas que reflete o contexto da época.
Avançando para 1992, a Rio-92 trouxe um novo patamar de discussão. Foi ali que nasceu a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, estabelecendo as bases do sistema atual. Um dos conceitos centrais apresentados foi o das “responsabilidades comuns, porém diferenciadas”, que reconhece que todos os países devem agir, mas de formas proporcionais às suas realidades. Esse princípio ajuda a explicar por que as negociações climáticas são tão complexas: não se trata apenas de definir metas, mas de equilibrar justiça histórica, capacidade econômica e urgência ambiental.
A COP como uma “reunião de condomínio global"
Um dos momentos mais didáticos da aula foi a comparação das COPs com uma reunião de condomínio. A analogia trouxe clareza para um sistema que, à primeira vista, pode parecer distante e burocrático.

Se o planeta é um condomínio com um problema estrutural, todos precisam contribuir para resolvê-lo, mas não na mesma proporção. Países mais ricos, que historicamente mais poluíram, deveriam arcar com uma parcela maior dos custos. Já países em desenvolvimento ainda buscam crescer e demandam apoio financeiro e tecnológico. Essa dinâmica explica por que as negociações são longas, complexas e, muitas vezes, conflituosas.
Kyoto, Copenhague e as lições do caminho
A aula também explorou momentos chave das negociações climáticas. O Protocolo de Kyoto, de 1997, foi apresentado como a primeira tentativa concreta de estabelecer metas obrigatórias de redução de emissões, especialmente para países desenvolvidos. No entanto, sua rigidez acabou sendo um dos seus limites, evidenciado por casos como a saída do Canadá.
Já a COP de Copenhague, em 2009, foi ressignificada durante a aula. Apesar de frequentemente vista como um fracasso, os palestrantes mostraram que ela foi fundamental para introduzir um novo modelo: o de compromissos voluntários definidos pelos próprios países. Essa mudança de lógica, do “imposto de cima para baixo” para uma construção mais flexível, abriu caminho para avanços futuros.
Política, poder e negociação
Ao longo da aula, alguns aprendizados se destacaram. O primeiro deles é que a governança climática internacional é profundamente política. Decisões não são tomadas apenas com base em dados científicos, mas também em interesses econômicos e estratégicos. Outro ponto importante foi perceber que muitos dos debates atuais já estavam presentes décadas atrás. A tensão entre países desenvolvidos e em desenvolvimento continua sendo central, apenas com novas roupagens.
Além disso, ficou evidente que a participação da sociedade civil tem ganhado força, especialmente em contextos democráticos. Isso amplia as possibilidades de atuação para além dos governos e reforça o papel de diferentes atores na construção de soluções.
O “milagre” possível
A aula se encaminhou para o Acordo de Paris, em 2015, apresentado como um verdadeiro “milagre diplomático”. Diferente de Kyoto, ele conseguiu reunir praticamente todos os países em torno de um objetivo comum, adotando uma abordagem mais flexível e inclusiva.
A mensagem final foi clara: o regime climático é resultado de um processo histórico contínuo, cheio de avanços e retrocessos. Entender esse percurso é essencial para quem deseja atuar na área, não apenas como espectador, mas como agente de transformação. Mais do que uma aula sobre política internacional, o encontro foi um convite à reflexão: em um cenário de urgência climática, negociar não é apenas necessário, é inevitável. E compreender essas negociações é o primeiro passo para transformá-las.
Saiba mais sobre os palestrantes

Maria Gabriella Rodrigues de Souza
Formada em Direito pela Universidade Federal do Tocantins. Analista de Política Internacional na Latin American Climate Lawyers Initiative for Mobilizing Action (LACLIMA). Pós graduanda em Direito e Processo Ambiental. Em 2023 concluiu o curso em negociações climáticas ofertada por Harvard Law School (Climate Reality Project Negotiation Training. Anteriormente, foi assistente de pesquisa na
McMaster University, Canadá, através do Emerging Leaders of the Americas Program. Em 2022, foi bolsista da Fundación Botín, Espanha, no Programa para o Fortalecimento da Função Pública na América Latina.

André Castro Santos
André Castro Santos Advogado e geógrafo. Diretor Técnico da LACLIMA. Visiting Fellow no Grantham Research Institute (GRI) da London School of Economics and Political Science (LSE). Doutor em direito ambiental pela Universidade de São Paulo e doutor em ciências sociais pela Universidade de Lisboa. Conselheiro acadêmico da Youth Climate Leaders. Colunista do Um Só Planeta, da Editora Globo. Acompanhou presencialmente 9 conferências da ONU sobre mudanças climáticas.
Texto escrito por Tássio Vinicius Publicitário e participante da 14ª edição do curso da Youth Climate Leaders – Mudanças Climáticas: panorama, desafios e oportunidades para jovens profissionais. Atua com comunicação de causas, buscando fortalecer iniciativas que geram impacto social e ambiental.
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