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Comunicação para existir: Itocovoty Pataxó transforma a narrativa em ferramenta de representação e resistência

10 de set.
5 min de leitura

Texto de Sabrinna Leticia Moraes Rodrigues*

Para Itocovoty Pataxó, comunicar é uma forma de preservar histórias, fortalecer identidades e fazer com que os povos indígenas ocupem espaços onde, durante muito tempo, suas próprias vozes estiveram ausentes.


Pertencente aos povos Pataxó Hã-Hã-Hãe e Terena, Itocovoty cresceu dentro de território indígena, na aldeia Água Vermelha, na Bahia. Sua relação com o território e com a comunidade atravessa sua trajetória e ajuda a explicar o caminho que a levou até a comunicação.



Atualmente ela é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e atua em diferentes frentes ligadas à comunicação, entre elas: marketing, produção de conteúdo, pesquisa, roteiro e projetos. No centro dessas experiências está uma mesma preocupação: quem conta as histórias e quem tem o direito de ser ouvido.


Do território para a comunicação

A relação de Itocovoty com a comunicação ganhou novos contornos a partir de sua vivência no território e de sua participação no movimento indígena.


Em 2015, aos 14 anos, ela participou pela primeira vez do Acampamento Terra Livre (ATL), mobilização que reúne povos indígenas de diferentes regiões do país em Brasília para reivindicar direitos e pautar questões relacionadas aos territórios e às comunidades.


Ela conta que a experiência mostrou que muitas das conquistas que chegam até os territórios são resultado de mobilização e cobrança coletiva. Para ela, ocupar esses espaços também significava compreender que a luta indígena não acontece apenas dentro das aldeias. É preciso levar essas pautas para fora do território e disputar também os espaços de comunicação.


Uma rede construída coletivamente

Foi durante a pandemia que a comunicação passou a ocupar um espaço ainda mais importante em sua trajetória. Distante do território, Itocovoty vivenciou um período marcado por perdas, isolamento e pela ruptura de práticas que fazem parte da vida dos povos indígenas, especialmente aquelas relacionadas à oralidade, aos rituais e ao contato próximo entre as pessoa, no qual ela cita que não só a mesma, mas toda a comunidade sentiu muito o distanciamento e restrição.


Foi nesse contexto, em 2020, que recebeu o convite de comunicadores indígenas da região para integrar a Rede Diversidade dos Povos. No início, a proposta trouxe dúvidas, ela não sabia se estava preparada para assumir aquela responsabilidade, mas o  incentivo de outros comunicadores e amigos fez com que ela aceitasse o desafio.



A rede começou com cerca de 20 comunicadores e ao longo do caminho passou por mudanças e reorganizações. Itocovoty permanece entre as pessoas que continuaram sustentando o projeto, ajudando a construir seus próximos passos.


O trabalho tinha um objetivo aparentemente simples: fazer com que as mensagens chegassem às pessoas. Mas na prática significava descobrir como produzir conteúdo, alcançar públicos e construir uma comunicação que representasse diferentes povos, territórios e experiências.


Hoje, a plataforma reúne cerca de 34 mil seguidores, resultado que Itocovoty atribui não a uma pessoa, mas à construção coletiva de toda a rede.


Representatividade também é comunicação

Para Itocovoty, uma das forças da Diversidade dos Povos está justamente na diversidade que compõe a rede. Jovens, mulheres e diferentes identidades étnicas, culturais e de gênero fazem parte dessa construção. Mas existe ainda um elemento fundamental: a valorização dos comunicadores que já existem dentro dos próprios territórios.


Fotógrafos, artistas, cantores, produtores audiovisuais e outras pessoas que produzem comunicação fazem parte desse ecossistema.


A ideia é reconhecer que cada território possui suas próprias vozes e formas de comunicar.


A rede vai além de criar conteúdos sobre os povos indígenas, trata-se de abrir espaços para que os próprios povos possam produzir e compartilhar suas narrativas.


Para Itocovoty, quando uma pessoa indígena ocupa um espaço de comunicação, ela não representa apenas a si mesma. Existe ali uma dimensão coletiva. A presença de jovens indígenas nesses espaços também ajuda outras gerações a enxergarem novas possibilidades de atuação sem precisar abrir mão de sua cultura e de seu pertencimento.


“Não tem como falar da gente sem a gente”

É justamente nesse ponto que a trajetória de Itocovoty encontra uma discussão maior sobre jornalismo e representação.

Como integrante da Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (ABRINJOR), ela participou da construção coletiva do manual Poranga Marandúa, produzido por jornalistas indígenas.



Para ela, entrar no jornalismo significou compreender que os povos indígenas precisam ocupar esses espaços não apenas como personagens ou fontes, mas também como profissionais responsáveis por construir suas próprias narrativas.

“Não tem como falar da gente sem a gente.”

A frase resume uma das principais questões presentes em sua trajetória: a necessidade de transformar os povos indígenas de objetos de representação em sujeitos que também produzem, narram e definem suas próprias histórias.


Combater o estereótipo também é disputar narrativas

A comunicação também aparece como uma ferramenta para enfrentar os estereótipos que ainda cercam os povos indígenas. Ela chama atenção para um imaginário social que frequentemente associa indígenas a uma ideia de passado, como se o acesso à tecnologia, à universidade ou às redes sociais fosse incompatível com a identidade indígena.


Para ela, essa visão não apenas é ultrapassada, mas também limita a forma como a sociedade enxerga esses povos. A presença indígena nas universidades, nas cidades, no jornalismo e nas redes sociais não significa abandono da cultura. Pelo contrário: pode representar novas formas de fortalecer e comunicar essa cultura.



Nesse sentido, a comunicação se torna também uma disputa pelo imaginário.

Em vez de responder ao preconceito reproduzindo a mesma lógica, Itocovoty acredita na possibilidade de transformar essas narrativas, produzir informação e ocupar os espaços que historicamente foram construídos sem a participação dos povos indígenas.


Uma construção feita por muitas mãos

A própria trajetória de Itocovoty reflete essa ideia de coletividade. Sua chegada ao jornalismo aconteceu depois de experiências anteriores na área da saúde e de um processo de mudança de caminho profissional. Ao ingressar na UFRB, em 2022, encontrou na comunicação uma forma de reunir diferentes aspectos de sua história e de sua relação com o território.


Hoje, próxima de concluir a graduação, ela olha para sua caminhada como um processo que ainda está em construção. Não se trata de uma trajetória individual. Para Itocovoty, cada espaço conquistado é resultado de muitas pessoas, muitas lutas e muitas mãos que vieram antes. Seu objetivo não está apenas em construir uma carreira, mas em ampliar a presença indígena nos lugares onde decisões, narrativas e conhecimentos são produzidos.


Para ela, comunicar também é existir, representar, preservar e transformar. E se a comunicação tem o poder de construir imaginários, ocupar esse espaço significa também ajudar a construir uma sociedade capaz de enxergar os povos indígenas não a partir dos estereótipos do passado, mas a partir da diversidade, da contemporaneidade e das próprias vozes que existem dentro de cada território.


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*Texto escrito por Sabrinna Leticia Moraes Rodrigues – Publicitária e profissional de marketing, com experiência em comunicação, estratégia digital, gestão de projetos e eventos. Atua como Brand & Content Strategist voluntária na YCL e na construção de estratégias de comunicação que conectam marcas, pessoas e iniciativas, unindo criatividade, planejamento e propósito.



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