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Entre a ancestralidade e a adaptação climática: como Vera Lucia Moura fortalece o futuro das comunidades indígenas do Alto Rio Negro



As mudanças climáticas deixaram de ser uma previsão distante para se tornarem parte da rotina de muitas comunidades tradicionais da Amazônia. No Alto Rio Negro, no Amazonas, as transformações no clima já afetam o cultivo, a pesca, a caça e a organização da vida coletiva. É nesse contexto que a indígena Vera Lucia Moura atua, conectando os conhecimentos ancestrais de seu povo à construção de estratégias de adaptação climática desenvolvidas pela própria comunidade.

Integrante de uma comunidade indígena do Alto Rio Negro e estudante de História na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Vera transita entre a universidade e seu território, levando consigo a certeza de que o conhecimento acadêmico e os saberes tradicionais podem caminhar juntos. Durante as férias, retorna à sua comunidade para fortalecer esse diálogo e contribuir com iniciativas construídas coletivamente.

Para Vera, falar sobre mudanças climáticas exige, antes de tudo, compreender a forma como seu povo se relaciona com o território. Essa relação nasce da cosmologia indígena, na qual a floresta, os rios, a terra e todos os seres que habitam esses espaços possuem vida, espiritualidade e merecem respeito. Antes de qualquer atividade, existe um diálogo conduzido pelos benzedores, responsáveis por pedir licença aos seres da floresta e das águas, garantindo equilíbrio entre as pessoas e a natureza.

Essa forma de viver também orienta a produção de alimentos. O cultivo da roça, o cuidado com as nascentes, a preservação das árvores centenárias e o manejo da floresta seguem regras transmitidas pelos mais velhos às novas gerações. O objetivo nunca foi explorar o território até o limite, mas garantir que ele continue produzindo vida para quem vive hoje e para quem ainda virá.

"Tudo que existe dentro do nosso território é um ser vivo."

Nos últimos anos, porém, esse equilíbrio passou a enfrentar desafios cada vez maiores. Vera relata que as mulheres da comunidade precisaram reorganizar completamente sua rotina. O calor intenso faz com que o trabalho na roça aconteça cada vez mais cedo, enquanto a produção agrícola sofre perdas devido às altas temperaturas. As mandiocas apodrecem antes da colheita e o calendário tradicional das chuvas já não acompanha os padrões conhecidos pelas gerações anteriores.

Os impactos também atingem a pesca e a caça. Com a seca mais intensa dos rios, muitos peixes morrem devido ao aquecimento da água e a presença de animais diminui. Situações antes incomuns passaram a fazer parte do cotidiano das famílias, que dependem diretamente dos recursos naturais para sua alimentação e sustento.

Foi a partir dessas observações que Vera passou a desenvolver um trabalho de escuta dentro da própria comunidade. Participando do projeto Juventude pelo Clima, ela promove conversas com moradores para registrar as mudanças percebidas ao longo do tempo. Sua formação em História contribui para documentar as memórias coletivas, comparando o passado com a realidade atual e fortalecendo uma leitura comunitária sobre as alterações climáticas.

Um dos desafios desse processo é traduzir conceitos técnicos para a língua indígena. Segundo Vera, muitas expressões utilizadas nos debates sobre clima não possuem correspondência direta em seu idioma. Por isso, compreender o fenômeno exige construir explicações a partir das experiências vividas pelas próprias comunidades, observando as constelações, o comportamento das chuvas, os ciclos da natureza e as mudanças percebidas no território.

Essas conversas deram origem a uma iniciativa concreta: a construção de um Plano Comunitário de Adaptação às Mudanças Climáticas. Embora as comunidades indígenas já adaptem suas práticas diariamente, Vera destaca a importância de registrar essas estratégias em um documento formal. Além de orientar ações futuras, esse plano fortalece a defesa do território e serve como instrumento político para garantir que as necessidades das comunidades sejam reconhecidas pelas instituições públicas.

Entre as prioridades definidas coletivamente está a preservação das variedades de maniva, matéria-prima da mandioca e base da alimentação das comunidades do Alto Rio Negro. A preocupação é evitar que variedades tradicionais desapareçam em consequência das alterações no clima, comprometendo a segurança alimentar e a continuidade dos conhecimentos agrícolas transmitidos entre gerações.

Ao compartilhar sua experiência, Vera também chama atenção para outro aspecto fundamental: durante muito tempo, os povos indígenas tiveram seus conhecimentos desvalorizados e diversas práticas culturais foram proibidas. Ainda assim, resistiram. Hoje, fortalecer esses saberes significa também fortalecer estratégias de enfrentamento à crise climática, mostrando que as soluções não precisam surgir apenas da ciência convencional, mas também da experiência acumulada por povos que há séculos convivem em equilíbrio com a floresta.

A trajetória de Vera Lucia Moura demonstra que justiça climática passa necessariamente pelo reconhecimento dos saberes indígenas. Ao unir pesquisa, memória, participação comunitária e ancestralidade, ela contribui para que as comunidades do Alto Rio Negro construam respostas próprias aos desafios impostos pelas mudanças climáticas, preservando não apenas seus territórios, mas também sua cultura, sua identidade e seu modo de viver.


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Texto escrito por Tássio Vinicius Publicitário e participante da 14ª edição do curso da Youth Climate Leaders – Mudanças Climáticas: panorama, desafios e oportunidades para jovens profissionais. Atua com comunicação de causas, buscando fortalecer iniciativas que geram impacto social e ambiental. Conecte-se com o autor no LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/tassiovinicius/


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1 comentário


Convidado:
07 de ago.

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