O Chão da Mudança: como o Brasil pode redefinir seu papel climático através do uso da terra.
- YCL info
- 5 de mai.
- 4 min de leitura
No cenário global das mudanças climáticas, o Brasil possui um perfil de emissões que o diferencia drasticamente das nações industrializadas. Enquanto o mundo debate a transição energética e o abandono dos combustíveis fósseis, o desafio brasileiro está fincado no solo.
Na Aula 13 do curso YCL, a engenheira florestal e especialista em política climática, Renata Potenza, apresentou um panorama detalhado sobre como a agricultura, a pecuária e a gestão das florestas são os pilares para que o país deixe de ser um grande emissor e se torne uma potência de soluções baseadas na natureza.
O raio-x das emissões: o diferencial brasileiro

Diferente do panorama mundial, onde a energia responde por cerca de 73% das emissões, no Brasil o setor de Mudança de Uso da Terra e a Agropecuária somam mais de 70% do total de gases de efeito estufa lançados na atmosfera.
Renata Potenza destacou que, em solo nacional, "uso da terra" é praticamente sinônimo de desmatamento: cerca de 92% das emissões desse setor decorrem da supressão de vegetação nativa. O dado mais alarmante compartilhado durante a aula é que mais de 95% das áreas desmatadas em 2023 foram convertidas para uso agropecuário, o que evidencia a urgência de desvincular a produção de alimentos da derrubada da floresta.
A pecuária e o desafio do metano

Um dos pontos centrais da aula foi o impacto da pecuária de corte, responsável por 88% das emissões do setor agropecuário. O principal fator é a fermentação entérica, processo digestivo dos bovinos que libera gás metano (CH4). Potenza explicou que o metano é um gás de vida curta, mas com um poder de aquecimento 28 vezes superior ao CO2, o que torna a sua redução uma estratégia vital para "ganhar tempo" na luta contra o aquecimento global.
O Brasil é atualmente o segundo maior emissor mundial de metano pelo setor agropecuário, atrás apenas da Índia, o que coloca o país sob os holofotes de investidores globais focados em descarbonização.
Rastreabilidade: O "gargalo" dos fornecedores indiretos

Um tema que gerou profunda análise foi a complexidade da cadeia da carne. Renata esclareceu que o grande desafio da rastreabilidade não está nos fornecedores diretos (fazendas que vendem para o frigorífico), mas nos fornecedores indiretos (fazendas de cria e recria).
É no início da vida do animal que ocorre a maior parte do desmatamento ilegal, onde a fiscalização ainda encontra dificuldades para atuar. Como solução, citou-se a importância de elevar a régua de exigência, exemplificando com o caso da China, que exige animais abatidos com no máximo 30 meses, o que, de forma indireta, ajudou a reduzir a emissão de metano ao acelerar o ciclo de vida do gado.
O potencial de recuperação: soluções práticas e reais
A mensagem de Potenza foi clara: o Brasil não precisa derrubar novas áreas para aumentar a produção. O país possui aproximadamente 100 milhões de hectares de pastagens degradadas que podem ser recuperadas e integradas a sistemas produtivos modernos.
Dentre os caminhos viáveis discutidos, destacam-se:
Sistemas Integrados (ILPF): Modelos que unem lavoura, pecuária e floresta na mesma área, promovendo bem-estar animal e remoção de carbono pelo solo.
Plano ABC+: A principal política nacional para fomentar a agricultura de baixo carbono, embora ainda careça de maior transparência e monitoramento rigoroso.
Recuperação de Pastagens: Utilizar solos já abertos para aumentar a produtividade, poupando a vegetação nativa de novas pressões.
Transição justa e decisão política
A aula revelou a necessidade de "tropicalizar" as metodologias de mercado de carbono, uma vez que as regras internacionais muitas vezes ignoram a realidade da pecuária a pasto dos trópicos. Além disso, houve um consenso, pautado por questionamentos durante o encontro, de que a transição climática no campo só será efetiva se for socialmente justa, incluindo pequenos produtores, agricultores familiares e comunidades tradicionais que já preservam o solo com técnicas ancestrais.
Do conhecimento à ação
Renata Potenza encerrou sua participação com uma reflexão sobre a escala dos desafios: o Brasil possui a tecnologia e o conhecimento necessário para transformar sua produção. O obstáculo atual é converter esse saber técnico em decisão política e ação concreta com a velocidade que a emergência climática exige.
O agronegócio brasileiro está diante de um grande dilema: manter padrões de monoculturas extensivas ou liderar a nova economia regenerativa global através da diversificação e da floresta em pé.
Saiba mais sobre a palestrante:

Renata Potenza
Engenheira Florestal e Mestra em avaliação de serviços ecossistêmicos pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ) da Universidade de São Paulo (USP). É Gerente de Política Climática na LACLIMA e Especialista em política climática com experiência no desenvolvimento e implementação de estratégias de mitigação e adaptação para o setor agropecuário, incluindo metodologias de crédito de carbono, práticas de redução de metano e outros gases e engajamento e advocacy em políticas nacionais e internacionais. Ela é fellow e mentora da Youth Climate Leaders e membra do Climate Reality Project. Também compõe o board de experts da iniciativa PAC (Partnership Ag Carbono) hospedada pelo Instituto Interamericano para o agro (IICA).
Texto escrito por Daphne Maria, Jornalista pela Universidade Federal de Alagoas, Diretora Executiva do Olhos Jornalismo e Participante da 14ª edição do curso da Youth Climate Leaders – Mudanças Climáticas: panorama, desafios e oportunidades para jovens profissionais.
Conecte-se com a autora no LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/daphne-maria-382786178/




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