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Adaptação climática começa antes da obra: o que Claubert Santos aprendeu ao mapear áreas de risco em Ilhéus


Quando se fala em reduzir riscos causados pelas mudanças climáticas, é comum imaginar grandes obras de infraestrutura. Muros de contenção, drenagem, estabilização de encostas e soluções de engenharia costumam ocupar o centro desse debate. Mas, para Claubert Santos, a experiência de participar da construção do Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) de Ilhéus, na Bahia, mostrou que a adaptação climática começa muito antes da execução de uma obra.

Aos 24 anos, técnico agrícola florestal, gestor de resíduos sólidos e graduando em Engenharia Ambiental e da Sustentabilidade pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Claubert participou do projeto por meio da Ambientar, empresa júnior da universidade formada por estudantes e professores. O objetivo da organização é aproximar os universitários do mercado por meio da entrega de projetos reais para clientes reais, sempre pautados por eficiência, inovação e responsabilidade socioambiental.

Foi nesse contexto que surgiu um dos maiores desafios da equipe.

O Plano Municipal de Redução de Riscos é uma iniciativa do Ministério das Cidades, por meio da Secretaria Nacional de Periferias, desenvolvida em parceria com universidades públicas. Em Ilhéus, a UFSB ficou responsável pela condução do projeto, que tinha como missão identificar áreas suscetíveis a desastres naturais e propor soluções capazes de reduzir a vulnerabilidade da população e fortalecer a resiliência do município.

Embora a engenharia fosse parte essencial do trabalho, ela estava longe de ser a única área envolvida. O escritório reunia engenheiros, arquitetos, urbanistas, psicólogos, historiadores e sociólogos. A diversidade de formações não era um detalhe da metodologia, mas uma condição para compreender um problema que ultrapassa os limites da infraestrutura.

A equipe realizou o mapeamento das áreas de risco utilizando drones, imagens oblíquas, levantamentos em campo e processos de setorização. A partir dessas informações, eram desenvolvidas propostas de intervenção, como muros de arrimo, solo grampeado verde, sistemas de drenagem e outras medidas estruturais voltadas à estabilização das encostas.

Ao mesmo tempo, outra frente do projeto acontecia diretamente com as comunidades. Além das visitas técnicas, a equipe promovia plantões comunitários para apresentar o trabalho, ouvir os moradores e compreender como cada território percebia seus próprios riscos. Essas conversas passaram a fazer parte do diagnóstico tanto quanto os levantamentos realizados em campo.

Para Claubert, foi nesse processo que a engenharia ganhou um novo significado.

"Entendemos que o PMRR é um plano de adaptação, porque as coisas já estão postas e já sofremos os efeitos das mudanças climáticas." Ressalta. 

Essa percepção também modificou a forma de pensar as soluções. Nem sempre reduzir o risco significa retirar famílias do lugar onde vivem. Muitas vezes, a resposta está em tornar aquele território mais seguro, preservando a história, os vínculos sociais e a identidade da comunidade. Uma frase repetida durante o projeto resume essa visão.

"Temos que evitar ao máximo tirar a pessoa do risco, mas tirar o risco da pessoa."

Esse princípio orientou a construção do plano em Ilhéus e mostrou que adaptação climática também envolve planejamento urbano, participação social e tomada de decisão coletiva. As próprias soluções propostas refletiam essa lógica. Além das intervenções físicas, o PMRR previa medidas não estruturais, como a organização comunitária, criação de comitês locais e grupos de comunicação para resposta rápida durante eventos extremos. A infraestrutura continuava sendo fundamental, mas deixava de ser a única resposta.

Essa experiência também dialoga diretamente com a trajetória de Claubert na Youth Climate Leaders (YCL). Ao fazer o curso sobre mudanças climáticas no primeiro semestre de 2026  e ingressar na rede, ele buscava ampliar conhecimentos e conhecer novas formas de atuar diante da crise climática. Encontrou um ambiente interdisciplinar que reunia profissionais, lideranças e jovens de diferentes áreas e territórios.

"O curso me forçou, de maneira positiva, a sair da minha caixinha e observar o mundo por uma nova perspectiva." afirma. 

Segundo ele, o contato com colegas e facilitadores ampliou sua compreensão sobre os impactos das mudanças climáticas em contextos urbanos, rurais, indígenas, quilombolas e ribeirinhos. Mais do que aprofundar conhecimentos técnicos, a formação trouxe experiências práticas e diferentes formas de construir soluções coletivas. Essa vivência também reforçou sua percepção sobre o papel das universidades públicas e das empresas juniores no enfrentamento da crise climática.

"Acredito que tanto as universidades quanto as empresas juniores têm potencial e responsabilidade em ajudar a guiar os debates e as soluções para as crises climáticas no Brasil. O curso validou essa corresponsabilidade e mostrou caminhos para que isso seja feito da melhor forma." ressalta o fellow. 

Com a conclusão do trabalho em Ilhéus, a equipe iniciou uma nova etapa na cidade vizinha de Itabuna. Embora cada cidade apresente características próprias, Claubert acredita que muitos processos podem ser replicados, especialmente aqueles relacionados ao diálogo com as comunidades, ao trabalho interdisciplinar e ao aprendizado construído durante o projeto.

Entre as ferramentas que leva para esse novo desafio, ele destaca justamente duas discutidas durante a YCL: estratégias de engajamento comunitário e saúde mental no trabalho. Ao olhar para sua trajetória, Claubert diz que sua maior mudança não aconteceu na engenharia, mas na forma de compreender a crise climática. Antes, predominava o conhecimento técnico. Hoje, ele reconhece a importância das experiências compartilhadas por diferentes populações e profissionais para construir respostas mais completas aos desafios do clima. Por isso, quando fala com outros jovens interessados em atuar nessa agenda, seu conselho não começa pela especialização ou pela tecnologia. Começa pela iniciativa.

"Pare, escreva o que você tem, onde você está inserido, quem são as pessoas e organizações com quem você pode contar nesse primeiro momento e mão na massa." orienta. 

A experiência em Ilhéus mostrou que enfrentar a crise climática exige conhecimento técnico, mas também escuta, cooperação e capacidade de construir soluções junto aos territórios. E é justamente nessa combinação que Claubert acredita estar o futuro da adaptação climática no Brasil.



Texto escrito por Daphne Maria, Jornalista pela Universidade Federal de Alagoas, Diretora Executiva do Olhos Jornalismo e Participante da 14ª edição do curso da Youth Climate Leaders – Mudanças Climáticas: panorama, desafios e oportunidades para jovens profissionais.

Conecte-se com a autora no LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/daphne-maria-382786178/




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